Tag Archive | Primavera Árabe

Entre a revolução e o consenso: os rumos da Primavera Árabe

Sílvia Ferabolli

Revista Ciências & Letras, Porto Alegre, n. 51, p. 101-109, jan./jun. 2012

O início repentino e a concatenação dos levantes políticos que se convencionou chamar de “Primavera Árabe” tiveram apenas três precedentes históricos: as guerras de libertação das colônias hispano-americanas da primeira metade do século XVIII, as revoluções europeias de 1848-9 e a queda dos regimes no bloco soviético – 1989-91 (Perry Anderson, 2011). Além do efeito dominó característico desses eventos, o uso do termo “primavera” se relaciona com os ocorridos em 1968, quando Alexander Dubček, primeiro secretário do partido comunista da antiga Tchecoslováquia, tentou promover reformas a fim de descentralizar a economia e permitir maiores liberdades individuais. A iniciativa de Dubček, apoiada tanto por intelectuais locais como pela população, foi uma tentativa racional de flexibilizar e modernizar a gigantesca máquina burocrática e opressiva que havia se tornado o Estado sob o jugo soviético.  Naquela que ficou conhecida como “Primavera de Praga” – ou espírito de 1968 –  estudantes e o povo em geral viveram uma euforia utópica que acabou poucos meses depois com a invasão militar pelas forças do pacto de Varsóvia,  as quais restituíram a antiga ordem.   Leia Mais…

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Em busca de uma lógica Kadhafiana

Silvia Ferabolli

Boletim Mundorama, 04 de novembro de 2011

Considera-se um “sofisma” o emprego de argumentos falsos com aparência de verdadeiros. Um erro de pensamento, já que chega-se a uma conclusão válida baseada em premissas falsas. Entre os complexos mecanismos de construção de um sofisma pode-se destacar o “sofisma de implicação”, segundo o qual a autoridade de determinada fonte implica na veracidade de um enunciado. Também conhecido como “transferência de credibilidade”, tais sofismas são amplamente utilizados por veículos consagrados da mídia, especialistas e políticos que, a despeito de sua real credibilidade e competência, quase sempre enveredam pelo caminho da argumentação falaciosa – produzindo aquilo que Noam Chomsky iria chamar de manufacture of consent. Desde o início da “guerra ao terror”, tornou-se um habito trabalhar com conjuntos de sofismas que visam legitimar ações cada vez menos justificáveis em termos éticos e políticos. O problema das “armas de destruição em massa” nas mãos de um “tirano sanguinário” que representava uma “ameaça a paz mundial” foi a justificativa usada pelos norte-americanos para invadirem o Iraque e abortar o projeto em curso da construção do Estado-nação iraquiano. A remoção de Mouammar Kadhafi do poder na Libia, por outro lado, sustentou-se na justificativa de que essa era mais uma das conquistas da primavera árabe. Leia Mais…

Reflexões Sobre a Primavera Árabe

Sílvia Ferabolli

Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 2 – 28 de maio de 2011

Dezenas de eventos, centenas de artigos, milhares de comentários na internet. O que já se convencionou chamar de primavera árabe – ou o conjunto de manifestações que vem ocorrendo no mundo árabe desde que o tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo, gerando a onda protestos que derrubou os presidentes Ben Ali e Hosni Mubarak e que ameaça os regimes sírio, iemenita e barenita – ainda é um fenômeno de causas e consequências indefinidas. Contudo, algumas características marcantes desse “momento histórico árabe” já começam a ser percebidas por alguns estudiosos da área, tais como Charles Tripp, Sami Zubaida e Nadim Shehadi. Abaixo, uma síntese das ideias que esses autores vêm defendendo no que concerne ao recente “levante” árabe e que podem lançar luz sobre os caminhos que esse debate vai tomar nos próximos meses – ou mesmo nos próximos anos. Leia Mais…

O Egito pós-Mubarak

Cláudio César Dutra de Souza e Sílvia Ferabolli

Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 6 – 05 de março de 2011

No dia 11 de fevereiro de 2011, a população egípcia aparentemente atingiu seu objetivo após 17 dias de intensas manifestações por todo o país, com a renúncia do presidente/ditador Hosni Mubarak. A partir da insurreição popular na Tunísia, que pôs fim aos 23 anos de governo do presidente Zine El Abidine Ben Ali, foi quebrada a barreira do medo que impedia as populações do mundo árabe de saírem às ruas, revelando seu descontentamento com os governos corruptos, repressivos e alinhados a um Ocidente que sustenta democracias de fachada na região em defesa de seus próprios interesses.
Passada a alegria com o dia histórico da renúncia de Mubarak, a transição democrática ainda é uma incógnita. Apesar de ter deixado o Egito à beira da penúria econômica, com um sistema político repressivo e violento, Mubarak era uma aliado estratégico dos Estados Unidos e de Israel que temem, mais do que nunca, um desequilíbrio político na região que conduza a ascenção de fundamentalistas anti-ocidentais. Leia Mais…

Para além do fundamentalismo islâmico: o Egito pós-Mubarak

Cláudio César Dutra de Souza e Sílvia Ferabolli

Boletim Mundorama, 03 de fevereiro de 2011

Certas configurações políticas, de tão cristalizadas, parecem ser eternas, provocando uma espécie de acomodação, até mesmo uma preguiça intelectual para confrontá-las em suas debilidades e contradições. Esse raciocínio se confirma ao nos darmos conta da precariedade dos regimes no mundo árabe, sustentados por aparatos militares que, se lhes conferem uma aparência externa de força, também revelam a fraqueza de suas institutições e a debilidade das relações entre Estado e sociedade.
A partir da insurreição popular na Tunísia, que pôs fim aos 23 anos de governo do Presidente Zine El Abidine Ben Ali, a barreira do medo foi quebrada e a população saiu às ruas em diversas capitais árabes, em demonstrações que revelaram o descontentamento com seus governos corruptos, repressivos e alinhados a um Ocidente que sustenta democracias de fachada na região em defesa de seus próprios interesses. Leia Mais…