Tag Archive | Islã

A ira de ISIS

Silvia Ferabolli
Publicado em 22/06/2014 no Caderno Proa do Jornal Zero Hora (p.4)

IRAQ-UNREST-RAMADIOnde há poder há resistência. Essa máxima de Michael Foucault pode nos ajudar a entender a ascensão do ISIS – Islamic State of Iraq and al-Sham (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) muito mais do que qualquer explicação referente à cisão muçulmana entre sunitas e xiitas. Não precisamos retroceder ao século VII, quando conflitos internos na recém-formada comunidade muçulmana dividiram aqueles que aceitaram a sucessão do profeta (sunitas) e aqueles que defendiam a candidatura de Ali ibn Abi Talib (os Shīʻatu ʻAlī, ou partidários de Ali, xiitas) na linha sucessória do comando da Umma islâmica. Uma volta a março de 2003, quando da invasão norte-americana do Iraque, é um recuo suficiente no tempo, porque ali estão as raízes da calamidade iraquiana, onde o poder avassalador dos norte-americanos está encontrando formas também avassaladoras de resistência. Leia Mais…

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Implicações da Militância Islâmica Iraniana para o Mundo Árabe

Silvia Ferabolli

Meridiano 47, março de 2006

Desde a sua revolução islâmica, em 1979, o Irã tem interferido fortemente nas dinâmicas do Sistema Árabe de Estados, não tanto pela força de seu poderio bélico, mas principalmente pela destreza com que o país dos aiatolás manipula o discurso da defesa do islã como arma contra o ocidente.  Militarmente, o Irã demonstrou, no imediato pós-1979 (Primeira Guerra do Golfo 1980-1988), que sua máquina de guerra era forte o bastante para conter o avanço do mais militarizado dos países árabes, o Iraque.

Retoricamente, Revolução Iraniana colocou em xeque as credenciais islâmicas da Arábia Saudita e, por conseqüência, das demais monarquias do Golfo, ao expor os “ultrajantes” laços desses Estados com o Ocidente, particularmente com os Estados Unidos. O pilar antigo e indispensável da legitimidade das petromonarquias, a defesa do islã, começou a tremer frente ao discurso do novo regime revolucionário iraniano, que logo tornou público seu desejo de exportar a revolução islâmica pelos países vizinhos e, quiçá, para o resto do mundo. O nascimento do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), em 1981, deve ser entendido como uma resposta das petromonarquias à pressão do Irã, e o sucesso atingido por esse processo integrativo tem, cada vez mais, isolado esses países do restante do Mundo Árabe. Leia Mais…

Por que o Ocidente despreza o Islã?

Silvia Ferabolli e Cláudio César Dutra de Souza

Le Monde Diplomatique, outubro de 2007

Khaled Hosseini é um fenômeno editorial. Suas duas últimas publicações, O Caçador de Pipas e A Cidade do Sol, figuram nas listas dos mais vendidos nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil. A obra de Hosseini é lida por um público ávido por entender como vivem “os muçulmanos”. E ele parece cumprir muito bem o seu papel de (des)informar leigos pelo mundo sobre o que vem a ser o modus vivendi islâmico. Talvez essa não tenha sido a intenção do autor. Em seus livros, ele parece ser muito claro em situar seus personagens no interior do Afeganistão, mas como o entendimento dos conceitos religiosos, étnicos e de identidade nacional que definem muçulmanos, árabes e afegãos não é o forte da maioria da população, acabam todos sendo identificados, sem distinção, como seguidores do Islã. Essa associação não é de todo incorreta, já que a maioria dos árabes são muçulmanos, assim como o são os afegãos. O grande problema é associar o Islã com os segmentos mais retrógrados e atrasados da sociedade afegã – algo como definir o cristianismo como a religião que queima mulheres e hereges em fogueiras, permite a escravidão e silencia frente aos horrores do holocausto. Leia Mais…