Amartya Sen e o “humano” como índice de desenvolvimento

Cláudio César Dutra de Souza

Inédito

Para introduzir o complexo pensamento do economista indiano Amartya Sen, vale mencionar a crítica de Richard Reeves, professor na Universidade de Southern California, sobre seu último livro, The Idea of Justice (2009). Segundo Reeves, o domínio de diferentes áreas do conhecimento seria coisa do passado visto que os acadêmicos de hoje são estimulados a perseguir a hiper-especialização até o esgotamento total de um assunto. Esse tipo de pensamento compartimentado pode produzir teorias tão exatas quanto reducionistas e que carecem, em sua base, de uma reflexão mais subjetiva acerca dos fenômenos estudados. Amartya Sen, laureado com o prêmio Nobel de Economia em 2008 e professor titular no Departamento de Economia da Universidade de Harvard, transita pelas áreas da filosofia, sociologia e psicologia – além da economia – utilizando-as como ferramentas de análise em questões ligadas a justiça, a desigualdade e o desenvolvimento.   Leia Mais…

Em busca de uma lógica Kadhafiana

Silvia Ferabolli

Boletim Mundorama, 04 de novembro de 2011

Considera-se um “sofisma” o emprego de argumentos falsos com aparência de verdadeiros. Um erro de pensamento, já que chega-se a uma conclusão válida baseada em premissas falsas. Entre os complexos mecanismos de construção de um sofisma pode-se destacar o “sofisma de implicação”, segundo o qual a autoridade de determinada fonte implica na veracidade de um enunciado. Também conhecido como “transferência de credibilidade”, tais sofismas são amplamente utilizados por veículos consagrados da mídia, especialistas e políticos que, a despeito de sua real credibilidade e competência, quase sempre enveredam pelo caminho da argumentação falaciosa – produzindo aquilo que Noam Chomsky iria chamar de manufacture of consent. Desde o início da “guerra ao terror”, tornou-se um habito trabalhar com conjuntos de sofismas que visam legitimar ações cada vez menos justificáveis em termos éticos e políticos. O problema das “armas de destruição em massa” nas mãos de um “tirano sanguinário” que representava uma “ameaça a paz mundial” foi a justificativa usada pelos norte-americanos para invadirem o Iraque e abortar o projeto em curso da construção do Estado-nação iraquiano. A remoção de Mouammar Kadhafi do poder na Libia, por outro lado, sustentou-se na justificativa de que essa era mais uma das conquistas da primavera árabe. Leia Mais…

As prévias do Partido Socialista na França anunciam a campanha eleitoral de 2012

Cláudio César Dutra de Souza

Boletim Mundorama,  05 de outubro de 2011

As eleições para o senado francês, no dia 25 de setembro, foram um forte indicativo da disposição de voto do eleitorado francês para a campanha presidencial de 2012. Ao conquistarem 177, de um total de 348 cadeiras, do Palácio de Luxemburgo, aliado ao favoritismo que se mantém intacto nas últimas pesquisas eleitorais, os socialistas já vivem a certeza de que Nicolas Sarkozy irá para casa mais cedo no próximo ano.

O “presidente das reformas”, o “homem que prometeu sacudir a França”, entre outras promessas, se encontra isolado dentro de seu próprio partido e enfraquecido perante a opinião pública. Todas essas convergências fazem com que as prévias do Partido Socialista (PS), que irão ocorrer em dois turnos nos dias 09 e 16 de outubro, sejam um evento político de grande importância e que irá revelar, muito provavelmente, o nome do próximo ocupante do Palais de l’Elysée. Leia Mais…

Um Mundo Pós-AIDS?

Cláudio César Dutra de Souza

Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 3 – 01 de outubro de 2011.

Em junho de 2011 chegamos ao trigésimo aniversário de uma doença que modificou definitivamente nossos valores e percepções sobre relacionamentos e a sexualidade.  A Acquired Imune Deficiency Syndrome (AIDS) nasce, oficialmente, em 05 de junho de 1981, nos Estados Unidos, quando o Centro Americano para a Prevenção e Controle de Doenças registrou um estranho surto de pneumonia em Los Angeles. Nesse mesmo período, várias ocorrências de um raro tipo de câncer chamado Sarcoma de Kaposi aconteceram em São Francisco, levando os estudiosos a concluírem que algo de muito estranho e sério estava ocorrendo. A Sigla AIDS só foi oficializada em 1982, sendo que em seu início a doença era conhecida como Gay-Related Immune Deficiency (GRID), já que o primeiro grupo a ser afetado pela nova doença eram os homossexuais masculinos norte-americanos. Naquela época, de acordo com o filósofo e ativista francês Daniel Denfert, existia uma sigla pouco conhecida através da qual os pacientes com AIDS eram referidos nos corredores dos hospitais: WOG – Wrath of God, ou seja, “A Ira de Deus”. Nos idos de 1980, um paciente soropositivo carregava, de fato, uma sentença de morte em curto prazo. Leia Mais…

England Riots – uma anarquia sem sentido?

Cláudio César Dutra de Souza

Inédito

A situação de caos que tomou conta da Inglaterra, desde sábado passado, teve o seu início com a morte de Mark Duggan, ocorrida no distrito de Tottenham, norte de Londres. O que deveria se caracterizar como um protesto contra a violência policial acabou se transformando em uma onda de violência sem precedentes desde as grandes manifestações da era Thatcher. Distúrbios ocorreram em diversos bairros londrinos, desde os mais populares até o elegante bairro de Nothing Hill. Em poucos dias a situação se alastrou para outras cidades da Inglaterra, tais como Croydon, Liverpool e Birmingham. As cenas exaustivamente mostradas pela BBC mostravam um cenário semelhante de vandalismo e destruição ante a uma população amedrontada e policiais perplexos. Todos ainda se perguntam, afinal, o que querem esses jovens? Teriam eles uma causa ou seriam apenas bandidos comuns ou oportunistas? Leia Mais…

Ana de Hollanda é uma estrutura

Cláudio César Dutra de Souza

Inédito

A situação da ministra da cultura, Ana de Hollanda é uma eterna incógnita. Sua gestão, recém-iniciada, já sofre críticas da oposição, como seria de se esperar, mas principalmente da classe artística e de setores de seu próprio partido. Diversas vezes a presidente Dilma Rousseff foi obrigada a declarar publicamente o seu apoio a uma enfraquecida e confusa Ministra, incapaz de lidar com os espinhos e sutilezas do poder.  Filha de Sérgio Buarque de Hollanda, irmã de Chico e Miucha, tia de Bebel, a presença de Ana de Hollanda a frente do Ministério da Cultura parece ser uma jogada de conveniência do governo, um tributo a um grupo que, desde os anos 60 representa certa elite cultural brasileira cujos padrões de bom gosto retroalimentam as aspirações ufanistas/intelectuais do ouvinte médio. Ana de Hollanda, mais do que uma ministra inexpressiva, é uma estrutura. Leia Mais…

Reflexões Sobre a Primavera Árabe

Sílvia Ferabolli

Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 2 – 28 de maio de 2011

Dezenas de eventos, centenas de artigos, milhares de comentários na internet. O que já se convencionou chamar de primavera árabe – ou o conjunto de manifestações que vem ocorrendo no mundo árabe desde que o tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo, gerando a onda protestos que derrubou os presidentes Ben Ali e Hosni Mubarak e que ameaça os regimes sírio, iemenita e barenita – ainda é um fenômeno de causas e consequências indefinidas. Contudo, algumas características marcantes desse “momento histórico árabe” já começam a ser percebidas por alguns estudiosos da área, tais como Charles Tripp, Sami Zubaida e Nadim Shehadi. Abaixo, uma síntese das ideias que esses autores vêm defendendo no que concerne ao recente “levante” árabe e que podem lançar luz sobre os caminhos que esse debate vai tomar nos próximos meses – ou mesmo nos próximos anos. Leia Mais…