Arquivo | Relações Internacionais RSS for this section

A França face ao terror: novos desafios, velhas soluções.

frança

Cláudio Cesar Dutra de Souza

Inédito

O ano de 2015 está sendo dramático para a França, exigindo de seu Presidente, François Hollande, atitudes a altura dos desafios que vem enfrentando. Em 07 de janeiro o “massacre do Charlie Hebdo” traumatizou a França e o mundo. Na sexta feira 13 de novembro, os ataques orquestrados na capital francesa e arredores, supostamente perpetrados pelo ISIS, reavivaram o trauma de uma população cada vez mais amedrontada com uma violência que se reeditou de forma ainda mais drástica. Tal situação, se não for combatida de forma correta, pode representar o início do fim de um Presidente que consegue ser (ainda) mais fraco e confuso que o seu antecessor, Nicolas Sarkozy. Leia Mais…

Anúncios

A ira de ISIS

Silvia Ferabolli
Publicado em 22/06/2014 no Caderno Proa do Jornal Zero Hora (p.4)

IRAQ-UNREST-RAMADIOnde há poder há resistência. Essa máxima de Michael Foucault pode nos ajudar a entender a ascensão do ISIS – Islamic State of Iraq and al-Sham (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) muito mais do que qualquer explicação referente à cisão muçulmana entre sunitas e xiitas. Não precisamos retroceder ao século VII, quando conflitos internos na recém-formada comunidade muçulmana dividiram aqueles que aceitaram a sucessão do profeta (sunitas) e aqueles que defendiam a candidatura de Ali ibn Abi Talib (os Shīʻatu ʻAlī, ou partidários de Ali, xiitas) na linha sucessória do comando da Umma islâmica. Uma volta a março de 2003, quando da invasão norte-americana do Iraque, é um recuo suficiente no tempo, porque ali estão as raízes da calamidade iraquiana, onde o poder avassalador dos norte-americanos está encontrando formas também avassaladoras de resistência. Leia Mais…

Governo Morsi no Egito: crônica de uma morte anunciada

Sílvia Ferabolli

Boletim Mundorama, 12 de julho de 2013

2013-07-13T165935Z_2_BSPE96C1AJB00_RTROPTP_2_MUNDO-EGITO-PROMOTORES-MURSIO exército informou o presidente Morsi às 1700 GMT que ele não era mais presidente”. Com essas palavras, no dia 03 de julho de 2013, Abdul Fatah al-Sisi, o líder da SCAF, o Conselho Supremo das Forças Armadas do Egito, anunciou ao povo egípcio que o primeiro governo democraticamente eleito na história do país estava deposto.  E por que Morsi foi deposto? Porque durante seu primeiro ano de governo ele não conseguiu resolver problemas como corrupção endêmica, desemprego crônico e subdesenvolvimento econômico histórico. Ainda, ele não conseguiu romper com os privilégios maciços de que gozam os membros das forças armadas do país e não conseguiu fazer com que todos os grupos políticos do Egito concordassem com a nova constituição que foi aprovada durante esse primeiro ano. Esses seriam motivos suficientes para se derrubar um presidente, não? Não. Não seria razoável esperar que em apenas um ano qualquer um dos problemas estruturais do Egito, acima descritos, pudessem ter sido resolvidos. Se não foram essas as razões que levaram à derrubada de Morsi, o que foi, então? Leia Mais…

Entre a revolução e o consenso: os rumos da Primavera Árabe

Sílvia Ferabolli

Revista Ciências & Letras, Porto Alegre, n. 51, p. 101-109, jan./jun. 2012

O início repentino e a concatenação dos levantes políticos que se convencionou chamar de “Primavera Árabe” tiveram apenas três precedentes históricos: as guerras de libertação das colônias hispano-americanas da primeira metade do século XVIII, as revoluções europeias de 1848-9 e a queda dos regimes no bloco soviético – 1989-91 (Perry Anderson, 2011). Além do efeito dominó característico desses eventos, o uso do termo “primavera” se relaciona com os ocorridos em 1968, quando Alexander Dubček, primeiro secretário do partido comunista da antiga Tchecoslováquia, tentou promover reformas a fim de descentralizar a economia e permitir maiores liberdades individuais. A iniciativa de Dubček, apoiada tanto por intelectuais locais como pela população, foi uma tentativa racional de flexibilizar e modernizar a gigantesca máquina burocrática e opressiva que havia se tornado o Estado sob o jugo soviético.  Naquela que ficou conhecida como “Primavera de Praga” – ou espírito de 1968 –  estudantes e o povo em geral viveram uma euforia utópica que acabou poucos meses depois com a invasão militar pelas forças do pacto de Varsóvia,  as quais restituíram a antiga ordem.   Leia Mais…

Em busca de uma lógica Kadhafiana

Silvia Ferabolli

Boletim Mundorama, 04 de novembro de 2011

Considera-se um “sofisma” o emprego de argumentos falsos com aparência de verdadeiros. Um erro de pensamento, já que chega-se a uma conclusão válida baseada em premissas falsas. Entre os complexos mecanismos de construção de um sofisma pode-se destacar o “sofisma de implicação”, segundo o qual a autoridade de determinada fonte implica na veracidade de um enunciado. Também conhecido como “transferência de credibilidade”, tais sofismas são amplamente utilizados por veículos consagrados da mídia, especialistas e políticos que, a despeito de sua real credibilidade e competência, quase sempre enveredam pelo caminho da argumentação falaciosa – produzindo aquilo que Noam Chomsky iria chamar de manufacture of consent. Desde o início da “guerra ao terror”, tornou-se um habito trabalhar com conjuntos de sofismas que visam legitimar ações cada vez menos justificáveis em termos éticos e políticos. O problema das “armas de destruição em massa” nas mãos de um “tirano sanguinário” que representava uma “ameaça a paz mundial” foi a justificativa usada pelos norte-americanos para invadirem o Iraque e abortar o projeto em curso da construção do Estado-nação iraquiano. A remoção de Mouammar Kadhafi do poder na Libia, por outro lado, sustentou-se na justificativa de que essa era mais uma das conquistas da primavera árabe. Leia Mais…

Reflexões Sobre a Primavera Árabe

Sílvia Ferabolli

Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 2 – 28 de maio de 2011

Dezenas de eventos, centenas de artigos, milhares de comentários na internet. O que já se convencionou chamar de primavera árabe – ou o conjunto de manifestações que vem ocorrendo no mundo árabe desde que o tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo, gerando a onda protestos que derrubou os presidentes Ben Ali e Hosni Mubarak e que ameaça os regimes sírio, iemenita e barenita – ainda é um fenômeno de causas e consequências indefinidas. Contudo, algumas características marcantes desse “momento histórico árabe” já começam a ser percebidas por alguns estudiosos da área, tais como Charles Tripp, Sami Zubaida e Nadim Shehadi. Abaixo, uma síntese das ideias que esses autores vêm defendendo no que concerne ao recente “levante” árabe e que podem lançar luz sobre os caminhos que esse debate vai tomar nos próximos meses – ou mesmo nos próximos anos. Leia Mais…

Barry Buzan e o Globalismo Descentralizado

Silvia Ferabolli

Boletim Mundorama, 18 de maio de 2011

O globalismo descentralizado de Barry Buzan define um mundo que opera dentro de uma lógica de poder mais distribuído e menos concentrado, onde as regiões  terão mais autonomia para trilhar seus próprios caminhos. A posição que os Estados Unidos ainda mantêm é frágil e é bastante plausível argumentar que eles estão perdendo a capacidade de continuar liderando o sistema – e que ninguém ocupará o seu lugar porque a era dos super-poderes simplesmente acabou (ver A World Without Superpowers: de-centered globalism. LSE IDEAS and International Relations Department public lecture).

Para que se possa discutir o significado de um mundo de globalismo decentralizado cuja principal característicaé a inexistência de super-poderes faz-se necessário definir, primeiramente, o significado de “super-poder”. É importante ressaltar que existe uma diferença significativa entre super-power egreat-power. No primeiro caso, o poder se espalha através do globo e existe a capacidade de operar globalmente e, inclusive, de dominar o sistema. Um super-poder é aquele que desempenha – ou pode desempenhar – um papel hegemônico no sistema. No segundo, existe a influência em mais de uma região do mundo, como no caso da União Europeia, por exemplo, mas não existe capacidade de hegemonia sistêmica. Leia Mais…