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Foucault – O Irã e as Surpresas do Filósofo

Cláudio César Dutra de Soluza

Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 4-5 – 14 de maio de 2011

Em 1978, quando os protestos de rua contra o governo do Xá Reza Pahlavi, no Irã, estavam atingindo um ponto crítico, o filósofo Michel Foucault foi convidado a viajar várias vezes ao país como correspondente do jornal italiano Corriere de la Serra, da revista francesa Le Nouvel Observateur e do jornal francês Le Monde, dando início a uma improvável – mas intensamente verdadeira e contraditória – relação entre o pensamento de um dos maiores filósofos do século XX, que analisou como nenhum outro as relações de poder-saber que se constituíram a partir da modernidade, com os ditames de um religioso asceta encarnado na figura de Aiatolá Khomeini.

Nessa inédita atuação enquanto jornalista, Foucault produziu diversos artigos sobre os eventos que culminaram na ascensão de Khomeini ao poder, nunca escondendo o fascínio acerca do que concebia como o nascimento de uma nova “dimensão espiritual da política”. Para a historiadora Janet Afary e o sociólogo Kevin B. Anderson, autores do livro Foucault e a Revolução Iraniana (Ed É Realizações, 2011) ambos ligados aos estudos feministas, o apoio de Foucault a um regime repressivo e intolerante para com sexualidades ditas desviantes e expressões diversas de liberdade civil, era contraditório em relação ao que ele escrevera antes e que inspirara diversos movimentos sociais libertários em todo o mundo. Leia Mais…

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Eu nunca tive um amigo negro

Cláudio César Dutra de Souza

Jornal O Globo, em 24 de agosto de 2010

Nunca se discutiu tanto a questão racial no Brasil como na época da aprovação da lei das cotas para negros em nossas universidades públicas. Também foi esclarecedora a percepção de nossas limitações nesse assunto. Subitamente fomos brindados com as mais sofisticadas teorias sobre a inexistência do conceito de “raça”, que seriam muito bem vindas caso não estivesse totalmente deturpadas pelo nosso “racismo cordial”. Ao pensar em um suposto “conflito racial”, algumas pessoas foram a público denunciar a inconstitucionalidade, a aberração e a inutilidade de uma política de cotas para negros, visto que não existe racismo no Brasil. Daiane dos Santos, Neguinho da beija Flor e tantos outros foram “branqueados” e alçados a sua genética condição européia que lhes excluiria de uma vaga especial pelo sistema de cotas. Ao lermos o livro de ficção científica de Monteiro Lobato, “O presidente negro”, somos capazes de entender o que pode significar tais asserções e os aspectos políticos nelas envolvidos. Subitamente branqueamos os nossos negros, paradoxalmente, para mantê-los afastados de nós e de qualquer compensação reparatória, mesmo que mínima. Leia Mais…

Espancando a empregada

Cláudio César Dutra de Souza

Publicado originariamente na seção opinião do jornal O Globo em 13 de setembro de 2010 com o título “empregadas e a memória escravocata”

O título desse artigo é inspirado no livro do americano Robert Coover, lançado em 1982, que narra uma relação sado masoquista entre um patrão e a sua empregada. A essa era exigida a mais absoluta perfeição na execução de suas tarefas que, malgrado os seus esforços, constituía-se em algo impossível de ser alcançado. Conseqüentemente, ela sofria uma série de punições de violências físicas e psicológicas a qual suportava com a resignação típica do escravo cujas correntes, para além do real, se constituem como parte integrante de sua personalidade. O gancho do livro convida à reflexão sobre um tempo recente em que o Brasil era um latifúndio de empregadas domésticas que habitavam os lares da classe média brasileira, cujas relações patrão – empregada formavam uma cadeia exploratória naturalizada. Leia Mais…

O Estupro como arma de guerra

 Cláudio César Dutra de Souza

(Versão integral do artigo publicado em 05 de junho de 2010, no jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 2, sob o título “Guerra contra as mulheres”)

As cineastas holandesas Ilse e Femke van Velzen estrearam o seu novo documentário Weapon of war – confessions of rape in Congo, no dia 26 de março, em Londres. Esse documentário dá seqüência ao aclamado Fighting the silence – sexual violence against women in Congo, ambos inéditos no Brasil e que descrevem a brutal realidade dos estupros em massa perpetrados durante os conflitos armados que ocorrem com grande intensidade desde 1996 na República Democrática do Congo. Mais do que uma contingência de guerra, o estupro tornou-se uma tática militar para a “desestabilização emocional do inimigo”, eufemismo que justifica as mais brutais humilhações e violências contra civis inocentes. Leia Mais…

Slavoj Zizek e o capitalismo autoritário chinês

Cláudio César Dutra de Souza

Jornal Zero Hora, Caderno Cultura p. 6 – 13 de fevereiro de 2010.

O novo livro do filósofo e crítico cultural esloveno Slavoj Zizek, First as tragedy, then as farce (Verso, 2009, 157 paginas), traz um conjunto de idéias que valem uma reflexão. Entre elas, a mais polêmica é a que formula a hipótese de que estaríamos assistindo à consolidação de uma nova etapa na evolução do sistema capitalista, na qual os laços entre democracia e livre mercado (mesmo sujeitos a lapsos ditatoriais) seriam definitivamente rompidos e a face autoritária do capitalismo abertamente revelada.  

De acordo com Slavoj Zizec, esse capitalismo autoritário, que encontra na China o seu maior expoente, seria herdeiro da mão de ferro de antigos governos asiáticos totalitários, fossem eles comunistas ou monárquicos, os quais, a partir da emergência dos chamados “Tigres Asiáticos” (Hong Kong, Singapura, Coréia do Sul e Taiwian), na década de 1990, se mesclaram com o modo de produção que se consagrou vitorioso no Ocidente no último século.   Leia Mais…

Tirem seus rosários de nossos ovários

Cláudio César Dutra de Souza e Sílvia Ferabolli

Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique em 11 de março de 2009 com o título “O estuprador e o algoz”

 Nesses últimos dias, a mídia tem registrado exaustivamente o caso de uma menina, nove anos, que foi abusada sexualmente pelo padrasto e ficou grávida de gêmeos. Uma menina de 1,36m e parcos 33 kg não poderia resistir a um parto no qual haveria riscos até mesmo para uma mulher adulta, conforme afirmaram os médicos responsáveis. Portanto, de acordo com a lei brasileira, foi feito o aborto a fim de preservar a saúde física e psíquica dessa menina que mal sabia que os seus infortúnios haviam recém começado, graças à polêmica atitude do arcebispo de Olinda e Recife, D. José Cardoso Sobrinho, que excomungou do seio da Igreja Católica todos aqueles que haviam, de alguma forma, decidido pela interrupção dessa absurda gravidez, ou seja, a mãe, a equipe médica e inclusive a própria vítima. Leia Mais…

O mito da democracia racial frente a política de cotas

200512021018590_racismoCláudio César Dutra de Souza

Inédito

Ao tomarmos como base os múltiplos discursos que vêm sendo proferidos nos últimos meses em relação à contrariedade da aplicação de ações afirmativas no Brasil, particularmente no que se refere à adoção de cotas para negros nas universidades, podemos concluir que nesse país o racismo não existe. A base epistemológica que sustenta essa idéia se encontra apoiada nos mais arraigados mitos aos quais nos servimos para não pensarmos em nós mesmos como artífices e mantenedores de um processo de exclusão histórica da população negra. Um dos mitos mais absurdos, que frequentemente vem à tona direta ou indiretamente, é o da democracia racial. Leia Mais…