A França face ao terror: novos desafios, velhas soluções.

frança

Cláudio Cesar Dutra de Souza

Inédito

O ano de 2015 está sendo dramático para a França, exigindo de seu Presidente, François Hollande, atitudes a altura dos desafios que vem enfrentando. Em 07 de janeiro o “massacre do Charlie Hebdo” traumatizou a França e o mundo. Na sexta feira 13 de novembro, os ataques orquestrados na capital francesa e arredores, supostamente perpetrados pelo ISIS, reavivaram o trauma de uma população cada vez mais amedrontada com uma violência que se reeditou de forma ainda mais drástica. Tal situação, se não for combatida de forma correta, pode representar o início do fim de um Presidente que consegue ser (ainda) mais fraco e confuso que o seu antecessor, Nicolas Sarkozy.
Retornando um pouco no tempo a fim de melhor compreender o momento presente, em 2009, o então Presidente Sarkozy decide reintegrar novamente a França ao comando militar da OTAN, revertendo uma decisão do Presidente Charles de Gaulle, de 1966. A partir de então, a França passa a integrar a cooperação militar internacional da OTAN que, em 2011, lidera os ataques contra a Líbia que terminam com o longo governo do ex-amigo de Sarkozy, Muammar Khadafi. Em 07 de setembro de 2015, a aviação francesa inicia o bombardeio em território Sírio a fim de minar as posições dos combatentes agrupados sob o imenso guarda chuva subjetivo que se convencionou chamar de Estado Islâmico. A revolta Síria, que iniciou em março de 2011, ainda sob a ótica romântica da primavera árabe, é hoje uma guerra civil que envolve um conjunto expressivo de atores políticos de grande magnitude, tal como a Rússia, por exemplo, que, na figura de Putin, amplia significativamente a dualidade Assad x “outros”, ampliando a sua influencia em termos locais e globais.
A França, que se vale do esquema “ni-ni” (“ ni l’Etat islamique, ni Bachar Al-Assad”), enfraquece as suas posições no momento em que a sua liderança não é estimulada e reconhecida pelos demais países. Enquanto Obama se limita a solicitar timidamente a saída de Assad, a Rússia apoia explicitamente o regime (talvez o último grande comprador de armamento russo na região), fornecendo logística, exército e armamentos. Israel, país fronteiriço com a Síria e tradicional aliado americano na região, estabelece relações cordiais com o país de Putin de forma a preservar a paz em sua fronteira. Dentro dessa realidade, não é nada difícil constatar a delicada situação de Hollande no tabuleiro internacional. Nas próximas semanas estão marcadas reuniões do Presidente Francês com líderes de diversos países, junto com a ONU a fim de montar uma estratégia de combate a ameaça do ISIS que se impõe a “toda a civilização ocidental”, de acordo com o discurso oficial. De forma concreta, ainda é cedo para saber dos resultados de tais ações.
Por enquanto, seria produtivo fazer alguns simples exercícios de pensamento em um momento ao qual ainda não nos distanciamos o suficiente dos eventos a fim de elaborar raciocínios mais elaborados. Dessa feita, podemos iniciar com o ISIS, ousando pensá-lo mais como uma abstração do que um grupo organizado com o potencial destrutivo que se pensa. Pode ser que esse grupo esteja sendo superestimado e seus jihadistas (muitos com cidadania europeia) apenas cumprindo uma função que já foi da Al-Qaeda e do Talibã em tempos recentes, ou seja, construir um imaginário de pânico a fim de movimentar estruturas ocultas do sistema e seus interesses nem sempre manifestos. A Al-Qaeda funcionou perfeitamente para os Estados Unidos, mas será que teria o mesmo efeito para os interesses da França? Continuando nessa linha de raciocínio, podemos pensar em mais algumas variáveis no que concerne aos recentes eventos na França com o intuito de tentar compreender de forma mais ampla possível o porquê desse país estar sendo atacado pela segunda vez em poucos meses.
Não é demais recordar nesses momentos que a França, na figura de Napoleão, inaugurou as invasões europeias no mundo árabe quando em 1803 ocupou o Egito, bem como a história do mandato francês na Síria e os acordos de Sykes-Picot (1916) que podem bem ter custado vidas no século XXI. Também poderíamos pensar que a herança do governo Sarkozy, ao colocar novamente a França no comando militar da OTAN, possa ter reaberto velhas feridas nunca cicatrizadas e ainda mais: que as políticas ultranacionalistas e excludentes da “Union Pour un Mouvement Populaire” (UMP) não tenham sido suficientemente combatidas, ou aperfeiçoadas ou até mesmo rejeitadas pelo candidato socialista que, enfim, prometeu mudanças. Tudo isso pode bem se constituir em uma armadilha fatal para um governante indeciso que tenta reeditar o “ato patriótico” de George Bush, lançando mão da velha retórica do “eles querem destruir o ocidente e o nosso modo de vida” entre outros clichês do gênero. Para finalizar, e se por acaso a abstração do ISIS seja apenas um despiste para afastar suspeitas de outras forças que se movimentam ocultas nesse cenário?
É preciso ter em conta que os fatores envolvidos em atos dessa magnitude jamais são “simples”. Esse discurso nós deixaremos para os integrantes do ultradireitista “Front National” (FN) que não hesitam em diluir complexidades a fim de fazer passar velhas ideologias cujos desdobramentos nos são velhos conhecidos e nunca são bons. Outro ponto importante nesse nosso exercício conjuntural é perceber o quanto a França é um país fácil de ser atacado. Por um lado, ela jamais terá (como nenhum país o tem) a estrutura econômica e militar americana para investir em segurança. Por outro, tal como é o caso da vizinha Inglaterra, tão pouco se preocupa com políticas multiculturais que possam dar conta de jovens do sexo masculino desempregados, plenos de ódio e hormônios. Reeditar a essa altura a teoria do “choque de civilizações” de Samuel Huntington significa desprezar anos de estudos de pós-colonialismo e confundir problemas sociais com fanatismo religioso – o caminho certo para novos atentados cada vez mais dramáticos. E também para inócuas e injustas medidas extremadas que não resolverão o problema. Ao contrário, irão piorá-lo e, então, voltamos aos parágrafos anteriores.
Sem dúvidas é preciso acompanhar de perto os desdobramentos vindouros a fim de saber se François Hollande irá optar por políticas mais arrojada e prementes, ou se limitará a seguir a cartilha básica do discurso americano da “guerra ao terror”. Parido no vácuo da derrocada de Dominique Strauss-Kahn devido a uma suposta agressão sexual, nos Estados Unidos (da qual foi absolvido) pouco antes da “présidentielle” de 2012, François Hollande até esse momento não aparenta ser capaz de dar conta nem do déficit público de seu país e muito menos de garantir a segurança da população frente à possibilidade real de novos atos de terror. Talvez fosse a hora certa de empreender algumas reformas urgentes no sentido de incluir determinados e conhecidos grupos marginais dentro da bandeira francesa, respeitando as suas culturas e singularidades. Não é a toa que, desde os tempos de Robespierre, se sabe que as reformas são inimigas das revoluções.

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