Nelson Rodrigues- o centenário de um jornalista

Cláudio César Dutra de Souza

Inédito

nelson rodriguesNelson Rodrigues foi sem dúvida um dos mais criativo e polêmico dramaturgo que o Brasil já conheceu. Em 1943, sua peça “Vestida de Noiva”, com a direção de Ziembinski inaugurou o moderno teatro brasileiro. Posteriormente, Nelson produziu várias outras peças, tais como “Álbum de Família, “O Beijo no Asfalto”, “Engraçadinha”, entre outros, cujas montagens sofreram forte censura de todos os governos que ele conheceu, desde o Estado novo até a ditadura militar. Incestos, traições, homossexualismo, racismo, enfim, a polêmica sempre foi a marca das obras de Nelson Rodrigues. Se os  textos teatrais de Nelson já são suficientemente conhecidos, o mesmo não podemos dizer de sua produção jornalística enquanto cronista, que legou muitas de suas famosas frases e sedimentou a sua fama nos anos 60/70 como um dos grandes críticos culturais desse período histórico.

Nelson era filho do não menos polêmico Mário Rodrigues, que foi dono do jornal A Manhã e A Crítica entre os anos 20 e 30. De uma retórica violenta e impecável, Mário influenciou o filho Nelson que, desde os 13 anos de idade, começou a frequentar as redações jornalísticas e aí permaneceu até a sua morte. Entre os anos 50 e 70, Nelson publicou diversas crônicas esportivas na revista Manchete e no jornal “O Globo”, posteriormente reunidas no livro “A Sombra das chuteiras imortais”. Porém, foi a partir de 04 de dezembro de 1967, Nelson iniciou as crônicas conhecidas inicialmente como as “Memórias de Nelson Rodrigues” no jornal “Correio da Manhã” e que se tornaram as “confissões” quando este se transferiu para “O Globo”. Mesclando dados autobiográficos com virulentas críticas endereçadas a personagens e situações dos anos 60/70, a produção jornalística de Nelson Rodrigues de certa forma complementou a sua obra teatral, fazendo-o, por fim, um grande personagem de si mesmo. Tais crônicas foram posteriormente reunidas em quatro livros: A menina sem estrela, A cabra vadia, o óbvio ululante” e, finalmente, O reacionário, adjetivo que a partir de então, Nelson assumiria com orgulho, desafiando grande parte do establishment intelectual de esquerda da época.

O “autor maldito” das décadas passadas deu lugar a um ensaísta irônico e militante que desafiava os rumos aparentemente definitivos das mudanças que ocorriam nesse período. Independente de o país estar sob uma ditadura militar, certo Marxismo Cultural, inspirado pelos teóricos da Escola de Frankfurt, mais notadamente Marcuse, Adorno e Derrida, dominava o cenário artístico e intelectual do Brasil. Nelson e suas tragédias repletas de mulheres infiéis e desejos obscuros pareciam estarem ultrapassadas em uma época experimental em que a emergência da Psicanálise, o Concílio Vaticano II e o fervor revolucionário aboliam o conceito de pecado e culpa, construindo um novo cenário político-comportamental que objetivava, grosso modo, demolir com o passado, o “velho” e todas as tradições que eram caras a Nelson e as quais ele tanto explorava em suas peças teatrais.

A velhice enquanto anátema e inimiga das rupturas assumidas pelo emergente “sujeito jovem” e pela classe teatral engajada era assumida integralmente por Nelson Rodrigues, bem como a temida alcunha de reacionário, dois fatores mais do que suficientes para lhe colocar na marginalidade. Entretanto, partindo desses pressupostos, ele obsessivamente atacou o “culto à juventude” dos anos 60, onde até o Cristo, segundo ele, era apresentado como “o jovem salvador” a fim de torná-lo mais aceitável. “As esquerdas” como um todo, ocuparam um espaço considerável em sua produção nesse período. Nelson cunhou o termo “esquerda festiva” para criticar os intelectuais e artistas que participavam de passeatas e ostentavam certo “charme revolucionário” com pouca ou nenhuma produção consistente que abonasse pretensões mais sérias. Nelson irá criar, em suas confissões, uma ampla variedade de situações ficcionais (ou nem tanto) envolvendo um elenco de personagens caricaturais (ou reais) criados por ele, tais como a aluna de psicologia da PUC, o padre de passeata, as freiras de minissaia, as grã-finas amantes espirituais de Che-Guevara, Alceu Amoroso Lima, Palhares, “o canalha”, Dom Helder Câmara, o “poder jovem”, o pessoal da esquerda festiva que se embebedava no famoso bar Antonio’s, as feministas, a estagiária, entre tantos outros.

Uma de suas construções estilísticas mais notáveis era o recurso à “entrevista imaginária”. Para Nelson, uma entrevista jamais dizia a verdade, visto que o entrevistado não falava o que realmente pensava, ou melhor, aquilo que Nelson tinha certeza de que ele pensava para além da superficialidade de suas declarações oficiais. Tais entrevistas se davam em um imaginário terreno baldio, a meia-noite e tinham como testemunhas apenas grilos, pirilampos e uma cabra vadia que pastava o cenário. A pretensão de Nelson, com tal recurso, era mostrar a verdadeira face de seus desafetos. Dom Helder, um dos mais recorrentes, confessava a sua descrença em Deus e na eternidade e era apresentado como alguém inebriado pelo sucesso na mídia e deslumbrado com Marx. Cacilda Becker não era apenas uma atriz, mas sim, um “coletivo”, um “sindicato”. Vladimir Palmeira e até o seu amigo Hélio Pellegrino, entre outros, foram arguidos por Nelson e obrigados a confessar aquilo que não contavam “nem ao psicanalista e nem ao médium depois de morto”.

Em outros momentos das confissões, Nelson foi incrivelmente libertário.  Amigo do ativista negro e futuro político, Abdias do Nascimento, ele denunciou inúmeras vezes o racismo velado existente no Brasil. Muitos anos antes do cineasta Cacá Diegues cunhar o termo “patrulha ideológica”, Nelson já problematizava a tendência de alguns grupos em denegrir toda e qualquer obra que não estivesse alinhada com as suas pretensas verdades. Ele foi profético ao insistir na denuncia do totalitarismo de esquerda chinês ou soviético e suas ramificações no mundo. De início, Nelson foi um apoiador inconteste da ditadura militar no Brasil, ouvindo do próprio Presidente Médici a promessa de que não se torturava no país. A experiência com a prisão e a tortura de seu filho Nelsinho lhe fez rever radicalmente tais posições, tornando-se, nos anos 70, um importante aliado daqueles que eram perseguidos pelo regime. Como uma espécie de “agente-duplo”, Nelson ajudou muitos a escaparem do país graças à influência e informações privilegiadas que dispunha. Em seu centenário, o jornalista Nelson Rodrigues vale a pena ser conhecido tanto quanto o dramaturgo. Sua obra o coloca, sem dúvida, entre os grandes intérpretes do Brasil.

 

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