O joelho de Claire flexiona o desejo

Cláudio César Dutra de Souza

Inédito

  O filme “Le Genou de Claire”, de Eric Rohmer, foi exibido pela primeira vez em 1970, na França. Jerome (Jean-Claude Brialy) é um diplomata que passa suas últimas férias de solteiro às margens do lago Annecy. Lá ele reencontra Aurora (Aurora Cornu), uma escritora italiana que é sua amiga e que alugou um quarto na casa de uma senhora e suas duas filhas, Laura (Béatrice Romand) e Claire (Laurence de Monaghan). Logo Aurora o avisa que Laura está interessada nele, incentivando-o a ter um último namoro antes do casamento. Entretanto Jerome está interessado em Claire, tendo um desejo obsessivo em acariciar seu joelho.Aos que não viram o filme, essa sinopse bem poderia se adequar a uma série de clichês que Rohmer tinha nas mãos naquela época. A década de 70 e suas rupturas comportamentais. A França em plena ebulição pós maio de 68. Um romance com toques fetichistas entre uma adolescente e um homem já passado dos trinta anos. Um triângulo amoroso com toques incestuosos. Também poderia ser um filme – manifesto do tipo “qualquer maneira de amor vale a pena”, tanto quanto uma farsa erótico-libertária. Mas, para além de sua época e do que poderia facilmente produzir (e com enorme apelo comercial), Rohmer optou por construir a sua fábula dentro de rígidos padrões morais em uma aproximação surpreendente com o mito da normalidade neurótica psicanalítica por mais aborrecida que isso se pareça.

A neurose do ponto de vista da Psicanálise é o sintoma do sujeito dito normal. Inclusive é a única estruturação a produzir sintomas a partir daquilo que foi recalcado quando da introdução do significante do “Nome do Pai”, como é entendido por Lacan, ou seja, a interdição do incesto, o fim do Complexo de Édipo e a construção de um ego maduro mediado pelas instâncias super-egoicas que o farão adequar positivamente, na medida do possível, as exigências primárias da sexualidade e da agressividade a um contexto cultural específico. O neurótico clássico paga o preço pela civilização, através de seus sintomas que são desagradáveis recordações de suas pulsões reprimidas, da vontade que tem, mas não realiza, de chutar as regras e viver de acordo com as seus mais básicas pulsões. Portanto, a neurose, segundo Freud em sua obra “O mal estar na civilização” é o preço que pagamos por viver em sociedade na qual temos que adequar nossos desejos ao processo civilizatório.

Jerome vai se casar. O casamento implica na maior parte das culturas contemporâneas, ainda hoje uma espécie de renúncia. Ao escolhermos um parceiro prometemos, não sem alguma tristeza, que este será o único, fato este que vai contra a natureza polígama de nossas pulsões primárias. Mas alguma forma de acasalamento faz e ainda fará por muito tempo, um papel crucial em nossa subjetividade. Casar-se também significa “entrar nos eixos”, constituir família e poder sustentá-la na base do trabalho (próprio ou de terceiros). Para muitos parece algo um tanto quanto aborrecido e não são poucas as tentativas de escapar, mesmo por alguns momentos, dessa realidade. As prostitutas, por exemplo. para quem apostava que a maior liberdade sexual de nossos dias iria enterrá-las, enganou-se feio. Elas permanecem fortes em sua promessa de um gozo fora das regras e trabalha no sentido de efetuar a manutenção das fantasias masculinas de posse do corpo feminino muito além dos compromissos que isso supõe. O casamento de Jerome supõe um luto pela perda de sua vida de solteiro. Aurora o atiça no sentido clássico de uma “despedida de solteiro”. Mediada por suas próprias fantasias, informa a Jerome que  a adolescente Laura estaria apaixonada por ele. E é desse ponto que se inicia a grande passagem de Jerome que precisa escolher o destino que dará ao seu desejo.

A juventude sempre foi o grande atrativo das mulheres do ponto de vista masculino. Com o aumento da expectativa de vida manter-se jovem torna-se um imperativo o que gera uma busca cada vez mais frenética por não envelhecer. Uma adolescente que se oferece como possibilidade sexual a um homem mexe com várias fantasias. A do homem de poder servir-se daquele jovem corpo, que oferece inúmeras possibilidades de prazer, ao mesmo tempo em que oferece uma fuga de seu próprio processo de envelhecimento. O que unia Laura a Jerome era um laço edípico. Nas passagens em que ambos ensaiam um enlace amoroso isso fica bem claro no sentido dos apelos de proteção e da busca por homens maduros que possam dar conta de um sentimento de carência paterna por arte da personagem Jerome se envaidece por conseguir ser o objeto do desejo de Laura, mas a relação não avança para um enlace amoroso entre ambos.

Aprendemos com a psicanálise que alguns desejos existem para serem desejados, nem sempre para serem concretizados. Em “Lolita” de Vladimir Nabokov, o personagem Humbert leva as últimas conseqüências as suas fantasias sendo consequentemente destruído pelo turbilhão de sensações em que pagou para ver. Ele fez a “passagem ao ato” em jargão psicanalítico que significa justamente a concretização de uma fantasia e os desdobramentos inerentes a essa ação. Jerome mantém o seu desejo no plano subjetivo em relação à Laura, embora ele a toque e até mesmo lhe dê um rápido beijo nos lábios. Mas, de fato, ele foi capturado pelo desejo incestuoso de Laura, mantendo o papel paternal até o último instante independente do jogo de sedução que se forjou entre eles. Para Freud as relações parentais não são de modo algum isentas de fantasias eróticas diversas que o tabu do incesto impede que se concretizem. Um tabu não é de forma alguma uma “lei natural” senão não teria esse nome. Então a relação de Jerome e Laura não passou de uma atração sem maiores conseqüências, algo como uma paixão entre aluna e professor, entre pai e filha que permanece no campo do desejo e que é um ensaio necessário para uma futura vida sexual adulta.

Então Jerome conhece Claire e ocorre uma mudança sutil no desenrolar da trama. Ao contrário de Laura que mantém certa infantilidade pré-púbere, Claire possui traços de feminilidade mais marcantes e já possui uma vida amorosa em andamento, o que faz com que Jerome sinta-se irresistivelmente atraído por ela. Mas Claire não o corresponde da mesma forma de Laura. Para ela ele é um homem mais velho a ser tratado com polidez e distância e o seu interesse erótico está investido em um rapaz da sua idade que compartilha com ela as coisas típicas da adolescência. O namorado de Claire humilha Jerome com a sua juventude, trazendo a luz o pavor masculino da perda da potência. O que era então pura fantasia com Laura torna-se, para Jerome, uma possibilidade com Claire, estabelecendo a passagem da estrutura do imaginário para o real e, nesse contexto o joelho de Claire assume o papel de objeto-fetiche que protege o sujeito do horror da castração, de acordo com Freud.

Lacan uma vez disse em seus seminários que “o real é o insólito, a quebra de joelhos das nossas certezas, o que desfaz a arrumação das nossas defesas. Algo se despedaça, se rompe, abrindo-se um espaço.” e esse espaço que se abre é o da transposição do desejo imaginário ao ato. Jerome quer possuir Claire, no entanto essa se mostra inflexível aos seus apelos, sequer os percebe. Portando, é preciso flexioná-la e a partir de então o joelho de Claire torna-se um significante mestre do desejo de Jerome. Se conseguir dobrar Claire ele a terá para si. Mas os obstáculos persistem no sentido de que Claire não se mostra disposta a flexionar os joelhos por Jerome e este não consegue eliminar o distanciamento etário entre ambos. Claire não precisa de um pai, mas sim de um homem. Logo Jerome percebe que o caminho adequado à sua proposta de sedução pode ser pode ser o afastamento de Claire de seu namorado. Ele busca crescer aos olhos da adolescente utilizando-se das armas que possui. Por sorte ele presencia uma cena na qual ele se abraça com outra mulher em uma praça na cidade de Grenoble e, a partir desse evento, ele tem em mãos um trunfo no qual acredita que poderá dobrar a resistência de Claire.

Claire precisa ir à cidade e vê Jerome chegando com a sua lancha e lhe pede uma carona. Este, em nome do desejo, não hesita em inventar uma necessidade imperiosa de volta ao ponto na qual veio para ter a possibilidade lhe dar uma carona e consequentemente poder ficar mais perto do objeto amado. O destino quis que uma chuva inesperada os obrigasse a se refugiarem em terra firme ao abrigo da intempérie. È chegada à hora tão esperada para Jerome. Tudo parece conspirar para o sucesso de sua empreitada e ele ainda possui um trunfo em mãos no sentido de ser o portador de uma informação na qual acredita que irá acabar com o relacionamento de Claire, a suposta infidelidade de seu namorado.

Posto em prática o plano se revela um fracasso. Claire chora convulsivamente e contesta as informações de Jerome com códigos próprios de conduta na qual ele não entende por não fazer parte desse mundo. A tentativa de ganhar a sua confiança com um discurso maduro e centrado fracassa miseravelmente. E é nessa hora em que ocorre a incrível renúncia de Jerome. Ao ver a adolescente frágil e indefesa ao seu lado, sentada no chão e com os joelhos enfim flexionados ele se limita a acariciá-los de forma paternal e consoladora, restabelecendo os lugares de origem e pondo um fim lacônico ao seu interesse. Mais tarde ele irá comentar com a amiga Aurora o quanto de desejo havia naquele ato aparentemente inocente que o colocou face a face com a possibilidade de passagem ao ato. Após esse evento ele deixa a casa em que se hospedou, sem se despedir de ambas as adolescentes que foram cuidar de suas vidas, e segue rumo ao seu destino adulto, o casamento.

O filme termina por aí sem que nada efetivamente aconteça. Jerome brinca com Laura, deseja Claire, mas não efetiva nada com nenhuma das duas. E se fosse ao contrário? E se levasse até o fim o seu desejo o que aconteceria? Com Laura ambos poderiam viver por breves instantes uma fantasia na qual o tempo imaginariamente pararia para ambos. Talvez o mais provável seja que os dois se entediassem com a situação em muito pouco tempo após findar-se o encanto inicial. Em relação à Claire não seria difícil ver reproduzido o enredo de “Lolita”, pois o interesse de Jerome estava para além de uma instancia paternal. Este um desejo profundamente sexual, com vistas a sua concretização. Pela insegurança de Jerome em relação ao namorado de Claire, é de se pensar se este não viveria constantemente assombrado pelo fantasma dos homens mais jovens e potentes tendo como conseqüência ridículas manifestações de virilidade que exasperaria a ambos e poria em risco essa relação. E ainda, conforme “Lolita”, nada garantiria que Claire não perdesse o seu encanto quando passasse á vida adulta e começasse a lhe exigir aquilo que as mulheres comumente exigem de seus homens e que a fantasia por um adolescente não deixa de se constituir em uma fuga dessas responsabilidades. Esse poderia ser um desfecho possível, certamente que não o único.

Eric Rohmer optou por passar uma mensagem de coerência em seu filme no sentido de que qualquer desfecho contrário do que foi mostrado romperia algumas importantes regras sociais com resultados inesperados e potencialmente capazes de deixar marcas dolorosas nos personagens envolvidos. Seria um desfecho moralista a trama? Pode ser que sim e não faltará quem se desagrade ou critique o filme com base nesse entendimento. É claro que podemos refletir se relações desse porte podem escapar do destino trágico que as acompanha. Os detratores da Psicanálise a acusam de ser pouco simpática às novas e possíveis formas de laço social que ultrapassem os cânones Freudianos da sagrada família nuclear burguesa. Tudo isso pode ser uma terrível e incômoda verdade e como seria bom se vivêssemos em um mundo em que o amor fosse imune a tudo e despido de instituições e regras que o fazem seguir certas trilhas, nem sempre as mais desejáveis ou românticas.

O fato de possuirmos alguns milênios de cultura e civilização introjetados em nossa subjetividade é que forma as estruturas que nos norteiam. E estruturas se movimentam de forma muito lenta apesar do entendimento de alguns pós-modernistas atuais que se manifestam ostensivamente contra o estruturalismo. Paradoxalmente, a psicanálise, tão conservadora, ainda é a única forma terapêutica não adaptativa da atualidade, mas sim, uma leitura e uma proposta de reflexão acerca dos nossos limites, culpas sonhos e fantasias. E essa deixa um amplo leque de possibilidade para a flexibilização desses de acordo com o lugar em que ocupam em nosso desejo e singularidade.

Ao término do filme poderíamos pensar que o desfecho poderia ter sido diferente, que tabus poderiam ter poderiam ter sido quebrados. No entanto tudo permaneceu no território do desejo e da fantasia, tal qual no filme “De olhos bem fechados” de Stanley Kubrick, baseado no livro de Arthur Schnitzler que era, por sua vez, um grande conhecedor e admirador de Freud. Mas o fato de que algo não aconteceu em termos de ato não significa a riqueza das sensações vivenciadas no plano do desejo é justamente isso que nos diferencia uns dos outros. Em nosso plano psíquico vivenciamos cotidianamente as situações mais bizarras no que tange a manutenção do nosso status neurótico social. Vontades que vem e que vão, desejos sexuais e criminosos, adúlteros e incestuosos. O que nos diferencia de um criminoso é justamente a capacidade de renúncia e sublimação de nossa torpeza e de nosso egoísmo, às vezes igualmente de nossas aspirações mais elevadas, infelizmente. Jerome optou por manter-se dentro das regras, sendo que todas as alternativas foram medidas, ponderadas e finalmente descartadas.

Não seria o fato de ceder a essas tentações que faria de Jerome alguma espécie de monstro. Verdadeiros encontros, por vezes raros, podem acontecer entre indivíduos de qualquer idade e de qualquer status social. Querer reduzir as possibilidades amorosas a um determinado plano rígido é uma insensatez que frequentemente induz ao desespero aqueles que buscam vidas um pouco menos ordinárias. Contudo, para outros indivíduos esses planos se constituem em um padrão ao qual não podem e não conseguem escapar, pois não teriam capacidade para suportar o que viria depois. Como afirmava Lacan no Seminário sete “a ética na psicanálise” todos temos que pagar uma “libra de carne” pelo desejo. Essa frase aparentemente enigmática ensina que a conquista da nossa singularidade por vezes engendra alguns desafios aos quais nos farão entrar em choque com padrões culturais estabelecidos. E pagaremos algum preço por nossa ousadia. As vezes é necessário e até imperioso fazer um movimento desses sob pena de vermos caducar os preceitos que nos orientam, como caducaram inúmeros deles nas últimas décadas. Em relação ao joelho de Claire, nenhuma estrutura foi efetivamente desafiada e ninguém ali teve a menor vontade de pagar para ver. E tudo terminou bem, de acordo evidentemente, com a percepção que cada terá desse “bem”.

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