As prévias do Partido Socialista na França anunciam a campanha eleitoral de 2012

Cláudio César Dutra de Souza

Boletim Mundorama,  05 de outubro de 2011

As eleições para o senado francês, no dia 25 de setembro, foram um forte indicativo da disposição de voto do eleitorado francês para a campanha presidencial de 2012. Ao conquistarem 177, de um total de 348 cadeiras, do Palácio de Luxemburgo, aliado ao favoritismo que se mantém intacto nas últimas pesquisas eleitorais, os socialistas já vivem a certeza de que Nicolas Sarkozy irá para casa mais cedo no próximo ano.

O “presidente das reformas”, o “homem que prometeu sacudir a França”, entre outras promessas, se encontra isolado dentro de seu próprio partido e enfraquecido perante a opinião pública. Todas essas convergências fazem com que as prévias do Partido Socialista (PS), que irão ocorrer em dois turnos nos dias 09 e 16 de outubro, sejam um evento político de grande importância e que irá revelar, muito provavelmente, o nome do próximo ocupante do Palais de l’Elysée.

Há poucos meses, era dado como certo que esse nome seria o do então diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn (DSK). No entanto, as pretensões de DSK foram frustradas em maio último, após esse ter sido acusado de estuprar uma camareira do Hotel Sofitel, em Nova Iorque. Embora tais acusações carecessem de fundamentos e DSK tenha sido inocentado semanas depois, isso lhe custou o cargo no FMI, bem como o sonho de disputar as prévias do Partido Socialista, das quais era o grande favorito. A polêmica envolvendo DSK, na verdade, pouco comprometeu a sua imagem perante a opinião pública francesa, como mostraram tanto as pesquisas nacionais como as internas do PS. Isso porque na França, ao contrário dos Estados Unidos e alguns outros países europeus mais conservadores, questões sexuais e de gênero não costumam ser levadas em conta na esfera política – para desespero das feministas francesas (e suas colegas americanas), as quais acusam o Partido Socialista e os franceses em geral de serem indulgentes em relação ao comportamento de DSK.

É certo que a derrocada de DSK foi o dispositivo que impulsionou as candidaturas de François Hollande e Martine Aubry, antes eclipsadas pelo carisma do homem que poderia estar desfrutando uma vitória anunciada caso o destino, possíveis conspirações e seus próprios erros, não o tivessem jogado para fora da disputa.  Atual presidente do PS e comprometida com um pacto de “não agressão” com DSK, Martine Aubry nem por isso deixa de aproveitar a situação para discretamente play the gender card. Embora evitando falar abertamente e emitir julgamentos, Aubry tem livre trânsito entre as feministas francesas que continuam condenando DSK, o qual é visto por elas como uma espécie de “predador sexual compulsivo”, o que é corroborado pelas acusações da jornalista Tristane Banon, segunda a qual DSK teria tentado violentá-la em 2003. De quebra, Banon também coloca François Hollande, na época presidente do PS, sob suspeita, acusando-o de ter colocado “panos quentes” sobre o caso a fim de manter as aparências do partido.

Prosseguindo na estrutura de folhetim das atuais prévias do Partido Socialista, François Hollande é também o ator principal de uma novela que envolve Ségolène Royal, sua ex-companheira de partido e de vida. Separados desde o final das eleições passadas, o casal, outrora símbolo da gauche française, foi afetado pelo caso extraconjugal de Hollande com a jornalista Valérie Trierweiler, com a qual o candidato oficializou sua relação em 2010. A mídia francesa não cansa de especular o quão longe Hollande e Royal podem chegar no que diz respeito a possíveis ataques pessoais antes do primeiro turno das prévias. Favorito absoluto até o presente momento, Hollande naturalmente evita qualquer confronto. Entretanto, Royal se manifestou de forma irônica, em declaração ao jornal Le Fígaro, na semana passada, quando questionou se os franceses poderiam citar um único objetivo que ele [François Hollande] alcançou em 30 anos de vida política. Hollande, do alto de seus 44% das intenções de voto, não respondeu e, provavelmente, não o fará já que Royal, que ocupa o terceiro lugar com 13% das intenções de voto, é considerada por ele como carta fora do baralho.

Hollande está certamente mais preocupado com a atual presidente do Partido Socialista, Martine Aubry que, com 27% das intenções de voto, é a única ameaça real que esse enfrenta nas prévias. Arnaud Montebourg, e seus 10%, persegue o terceiro lugar de Royal e mostra tendências de crescimento. Manuel Valls e o presidente do Partido Radical de Gauche (PRG), Jean Michel Bayet, não possuem chances reais de vitória e não serão considerados nesse artigo. [1]

Faltando poucos dias para o primeiro turno das prévias, François Hollande aumenta seu favoritismo frente à Martine Aubry, ampliando-o a cada debate televisivo, o que pode fazê-lo ganhar a vaga ainda no primeiro turno. Cabe lembrar que, em 2007, o desempenho midiático do candidato Sarkozy teve enorme importância perante os franceses, tendo em vista que esse se mostrou coeso e objetivo em face de uma Royal que mudava de opinião de acordo com as pesquisas. Embora Hollande esteja quase certo como o candidato eleito, Aubry se empenha em percorrer o país em busca de eleitores. Nesse ano, as prévias do PS estão abertas ao cidadão francês “comum”, e não só aos filiados. Com esse dado novo, a candidata busca diminuir sua desvantagem em relação à Hollande e para isso não hesita em denunciar, mesmo que de forma discreta, o “sexismo francês” em um discurso com discretas menções a sua condição de “mulher”, que poderia ser a primeira a governar a França. A candidata é forte entre as feministas francesas, que persistem em querer colocar relações de gênero em pauta nessas prévias. No entanto, em recente declaração a imprensa, Anne Sinclair, mulher de Dominique Strauss-Kahn, afirmou que não acredita nem por um segundo nas acusações feitas ao seu marido, apelando para a decência e à “contenção” por parte dos órgãos de comunicação. Sinclair representa uma opinião majoritária na França, partilhada entre mulheres e homens, a qual protege a privacidade a qualquer custo.

O irônico é que DSK é livre para se expressar como quiser e pode oferecer o seu apoio a quem ele desejar, mesmo que um “falso apoio” no intuito de prejudicar algum desafeto que, nesse caso, seria Martine Aubry. Igualmente, apenas para tornar mais complicado o assunto, o silêncio de DSK será, sem dúvida, explorado avidamente pela Union Pour um Mouvement Populaire (UMP) na tentativa de aditivar a combalida candidatura de Sarkozy. Podemos esperar muitos lances desesperados que irão ultrapassar aspectos éticos ordinários, tal como o livro que Tristane Banon irá lançar em meados de outubro contando detalhadamente o suposto abuso por parte de DSK. Não há dúvidas que essa história irá respingar em François Hollande.

A saída de Sarkozy dos holofotes da política francesa não se fará sem certa melancolia. Bravatas a parte, esperava-se, em 2007, que o projeto politico de reformas de Estado, que era o carro chefe do candidato da UMP, avançasse o mínimo que fosse a fim de resolver fortes desigualdades dentro da sociedade francesa. O progressivo enfraquecimento e certa folclorização de seu mandato impedem discussões mais aprofundadas a respeito da engessada estrutura de Estado na França, que ainda necessita de reformas, seja lá qual for o próximo presidente eleito.

No meio de todo esse delicado jogo de poderes onde qualquer movimento em falso pode ser fatal, as propostas dos candidatos até o momento seguem uma cartilha bem conhecida que vai da geração de novos empregos à redução do déficit fiscal, passando pela revalorização do ensino público, entre outras declarações pro forma que serão melhor examinadas nos debates específicos da campanha eleitoral.

Por fim, em se falando de eleições, principalmente de eleições na França, cabe a clássica frase do jogador Didi de que “treino é treino, jogo é jogo”. A tendência do momento aponta François Hollande como o vencedor das prévias do PS e também como o provável próximo presidente da França. Entretanto, há ainda muito tempo pela frente e reviravoltas podem acontecer em uma campanha que já iniciou de forma atípica.  Os bons ventos que sustentam a campanha do PS podem mudar no momento em que acabarem as prévias e iniciar a campanha propriamente dita. Nicolas Sarkozy é um excelente debatedor e convém também lembrar que Marine Le Pen está em processo acelerado de campanha, afiando a guilhotina para 2012.


[1] Os dados são referentes a última pesquisa IPSOS-Le Monde, publicada na edição do jornal do 29/09/2011.

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