England Riots – uma anarquia sem sentido?

Cláudio César Dutra de Souza

Inédito

A situação de caos que tomou conta da Inglaterra, desde sábado passado, teve o seu início com a morte de Mark Duggan, ocorrida no distrito de Tottenham, norte de Londres. O que deveria se caracterizar como um protesto contra a violência policial acabou se transformando em uma onda de violência sem precedentes desde as grandes manifestações da era Thatcher. Distúrbios ocorreram em diversos bairros londrinos, desde os mais populares até o elegante bairro de Nothing Hill. Em poucos dias a situação se alastrou para outras cidades da Inglaterra, tais como Croydon, Liverpool e Birmingham. As cenas exaustivamente mostradas pela BBC mostravam um cenário semelhante de vandalismo e destruição ante a uma população amedrontada e policiais perplexos. Todos ainda se perguntam, afinal, o que querem esses jovens? Teriam eles uma causa ou seriam apenas bandidos comuns ou oportunistas?

Um conjunto de situações complexas deve ser levado em conta antes de se tentar soluções simplistas nesse caso. Para um brasileiro médio, pode parecer estranha a estratégia de atuação da polícia britânica. Imagens da BBC mostram os manifestantes quebrando vitrines e roubando objetos na frente de centenas de policiais que nada fazem para impedir os saques. Poderíamos esperar ações bem mais incisivas de qualquer polícia sul-americana em face de problemas semelhantes. Nos atuais conflitos na Síria, as forças armadas fiéis ao presidente Assad não hesitam em abrir fogo contra a população que exige a sua renúncia. Entretanto, na “ultra-civilizada” Inglaterra, ações de violência policial desse porte são inaceitáveis até para os mais conservadores. A extrema violência das ações confunde polícia, políticos e pensadores, enquanto a população busca respostas.

Manifestações sociais fortes, por vezes violentas, são comuns em um país em que as massas se levantam sem dificuldades para fazer valer seus direitos. Nos últimos anos, a Inglaterra teve uma série de protestos contra a tentativa de cortes em benefícios sociais e o aumento das mensalidades do ensino superior, entre outras.  Em 1990, o Reino Unido esteve a beira do caos nas manifestações conhecidas como Pull tax riots, quanto milhares de pessoas tomaram as ruas em fortes confrontos com a polícia para protestar conta os elevados impostos que a então Primeira Ministra Margareth Thatcher impunha aos britânicos. Analistas políticos hoje concordam que tais eventos foram decisivos para a renúncia de Thatcher em novembro daquele mesmo ano quando John Major assumiu o governo e atendeu as exigências da população. Naquela época, foi decisiva a participação de agentes políticos e sindicais, tanto quanto do cidadão comum.

Nos distúrbios que a Inglaterra assiste nos últimos dias, ao contrário, não há reivindicações e não há porta-vozes denunciando o que quer que seja. Se os primeiros distúrbios poderiam ser entendidos como uma resposta ao assassinato de um jovem negro do subúrbio, o que se seguiu não passou de uma onda de assaltos, verdadeiros “arrastões” que dizimaram estoques de produtos eletrônicos em lojas do ramo, além de roupas, cigarros e bebidas em grandes e pequenos estabelecimentos locais. A esquerda britânica, nos primeiros dias, até tentou trabalhar com a ideia de tensões raciais, opressão da juventude, desemprego, etc. Contudo, infelizmente, faltaram “palavras de ordem” que legitimassem as ações dentro de um espectro minimamente militante em qualquer sentido. “Também foram calados aqueles que de certa forma se animaram com a hipótese remota de um “levante do proletariado” contra a “burguesia conservadora.”.

Em termos rigorosamente Marxistas, o espetáculo dos últimos dias poderia ser entendido como a manifestação do Lumpesinato. Na terminologia Marxista, o lúmpem é o estrato social que carece de consciência política. São tão somente miseráveis que se dedicam ao roubo e a atividades marginais diversas, desvinculados da produção social e que acabam por atrapalhar a verdadeira luta do trabalhador. A esquerda britânica, rapidamente, corrigiu alguns entendimentos precipitados que emergiram no início dos acontecimentos e agora evita a glamurização insensata do agir criminoso. Para ganhar o status de “protesters”, tais jovens poderiam se dedicar a denunciar a sociedade de consumo que transforma alguns objetos em fetiches de consumo, tais como televisões de plasma e smart phones roubadas aos montes. Pode-se compreender que populações desprovidas saqueiem supermercados, porém o que aconteceu durante o arrastão do Kingsland Shopping Centre no distrito de Hackney foi nada mais do que a satisfação de um desejo de consumo imediato e mediado pela apropriação indébita. Nenhuma ideologia envolvida, nenhuma crítica ao “sistema” foi feita – principalmente ao fato de que por trás de muito dos produtos ali roubados está o sofrimento de um trabalhador chinês semiescravo.

Não menos carentes de uma análise mais encorpada, os conservadores repetem a mesma ladainha a respeito da necessidade de “endurecer” contra os “baderneiros”. Muitos esticam as suas conclusões no sentido de retomar o discurso sobre a “falência do multiculturalismo” e a necessidade do resgate da “identidade britânica”. Parece que o antagonismo direita x esquerda já não é suficiente para dar conta de algo diferente e que não possui organização, metodologia ou mesmo ideologia. A Inglaterra é especialista em lidar com todo o tipo de distúrbios, contanto que haja uma motivação que os sustente. A criminalidade lúmpem é uma novidade no Reino Unido – e uma triste realidade no Brasil. Em nosso país, há quem veja essas ocorrências como uma espécie de aviso para o cuidado com a segurança para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos que ocorrerão nos próximos anos. Infelizmente, a contenção rápida e brutal de manifestações populares mais violentas é uma caracterísitca do Brasil. Não temos com o que nos preocupar.

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