Ana de Hollanda é uma estrutura

Cláudio César Dutra de Souza

Inédito

A situação da ministra da cultura, Ana de Hollanda é uma eterna incógnita. Sua gestão, recém-iniciada, já sofre críticas da oposição, como seria de se esperar, mas principalmente da classe artística e de setores de seu próprio partido. Diversas vezes a presidente Dilma Rousseff foi obrigada a declarar publicamente o seu apoio a uma enfraquecida e confusa Ministra, incapaz de lidar com os espinhos e sutilezas do poder.  Filha de Sérgio Buarque de Hollanda, irmã de Chico e Miucha, tia de Bebel, a presença de Ana de Hollanda a frente do Ministério da Cultura parece ser uma jogada de conveniência do governo, um tributo a um grupo que, desde os anos 60 representa certa elite cultural brasileira cujos padrões de bom gosto retroalimentam as aspirações ufanistas/intelectuais do ouvinte médio. Ana de Hollanda, mais do que uma ministra inexpressiva, é uma estrutura.

Após os anos 60, o conceito de MPB (música popular brasileira) emergiu como um conceito que, dali por diante, iria pautar certo entendimento a respeito do que seria “cultura” no Brasil. Nesse período surgiram Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Rita Lee, enfim, o sagrado olimpo daquilo que se constituiria nas décadas seguintes como MPB. Em 1968, Ana de Hollanda participou do III Festival Internacional da Canção com o frevo “Dança das Rosas”. Ao contrário de seu irmão, a carreira artística de Ana foi errática. Ela gravou apenas quatro discos e participou de projetos artísticos sem grande repercussão comercial. Também foi Secretaria Municipal de Cultura de Osasco-SP (1986-88) e vice-diretora do museu da imagem e do som de 2007 a 2010 quando assumiu o Ministério da Cultura. Ana de Hollanda faz parte da aristocracia da MPB e não são poucas as vozes que se levantam cegamente em sua defesa. Uma dessas vozes é Caetano Veloso que recentemente declarou o seu apoio incondicional à ministra.

Recentemente, a irmã de Caetano, Maria Bethânia, sofreu críticas por ter conseguido a autorização do Ministério da Cultura para captar 1.3 milhões de reais para compor um blog na qual recitaria um poema por dia durante um ano. Com um minuto de duração, ela seria dirigida por Andrucha Waddington.  Nenhum argumento no universo justificaria tal soma a um empreendimento a qual Bethânia poderia fazer deitada na rede de sua casa com uma webcam se realmente pensasse que “O mundo precisa de poesia”. Porém, o mundo precisa de contatos e patrocínios mais do que tudo. Caetano, ao comentar o evento dispara que “E essa história [de Bethânia] pode ser essa vontade de derrubar Ana porque acreditam demais na magia benigna da internet.(…)Há muita mitologia do novo mundo da internet, do admirável mundo novo. É uma espécie de bolha conceitual. Sou velho o suficiente pra dizer que é bobagem.” Essa frase de Caetano foi reproduzida nos principais jornais do país e não quer dizer absolutamente nada. Apenas evidencia uma soberba e um sentimento persecutório de quem não admite críticas e tenta desviar o foco da questão com filosofias rasteiras que são recebidas como hóstias por seu fiel público.

A ironia maior é que o pai de Ana, Sérgio Buarque de Hollanda, é o autor de “Raízes do Brasil” uma obra prima sobre o caráter cordial do povo brasileiro. Nesse sentido, não custa recordar que “cordialidade” não é gentileza, mas sim, vem do latim “corda” (coração). Significa, entre outras coisas, que estabelecemos redes de contato baseadas em laços afetivos e subjetivos que seriam o oposto de uma possível meritocracia. O “homem cordial” coloca o afeto como algo superior á razão. Sérgio Buarque narra o espanto de um americano que narra que o Brasil é o único país que, antes de se fazer um negócio, é preciso se tornar amigo do cliente. Nada espantoso que o mais recente escândalo de Ana de Hollanda seja a captação de 1.9 milhões de reais de sua sobrinha, a cantora Bebel Gilberto, filha de João Gilberto e Miucha, irmã de Ana, para fazer uma série de shows pelo Brasil e gravar um DVD. Coincidência ou nepotismo? Aguardam-se ansiosamente as palavras de Caetano para a denúncia de mais uma conspiração em marcha com citações deleuzianas complexas, enquanto apadrinha a pré- fabricada Maria Gadú e sua MPB clichê.

Os privilégios de Bethânia e Bebel Gilberto perfazem uma ação cordial entre amigos. Ana de Hollanda é uma estrutura, tal como Gilberto Gil o era anteriormente. Parece que geração rebelde dos anos 60 agora se locupleta com as delícias do poder. O motivo pelo qual o PT cede espaço à rede cordial da MPB se explica no sentido de agradar formadores de opinião e seus discípulos que, mesmo sendo pouco numerosos, possuem grande poder de fogo. É a mesma estratégia que as grandes gravadoras utilizavam nos anos 70 quando mantinham os artistas da “MPB” em seus casts. Caetano, Chico e afins jamais formam grandes vendedores de discos, porém, a sua presença nas gravadoras era obrigatória a fim de trabalhar a parte institucional da empresa, Gretchen, Magal e Ovelha pagavam os custos de produção desses artistas e ainda geravam lucro. Isso não significa que se defenda o nivelamento da arte de acordo com o seu potencial de venda. No entanto, quando Caetano grava Odair José e Peninha, ou Bethania relê “é o amor” de Zezé de Camargo e Luciano, temos a dimensão do quanto é preciso o aval desses artistas para que se superem certas barreiras estéticas daquilo que significa “bom gosto”, e mais além, do próprio conceito de cultura.

Então, por que o Ministério da Cultura, desde a gestão anterior, se tornou um feudo de certos clãs? O que Ana de Hollanda tem a oferecer a um Brasil tão rico culturalmente e que talvez mereça ter acesso a outras manifestações que ultrapassem a tropicália bossa velha de artistas que, a despeito de seu imenso talento, podem andar sozinhos. Por outro lado, é chegada a hora da velha geração abandonar o antigo hábito do “beija-mão”, supondo que irá legitimar os jovens que iniciam na carreira artística. Ana de Hollanda, nesse caso, representa uma estrutura que talvez ela mesma desconheça. Espanta a sua ingenuidade que dá margens a tantas críticas, ou, a sua aristocrática arrogância perante as mesmas. Existe uma velha frase que diz “falta cultura para cuspir na estrutura”. Tal cultura é algo maior do que aquilo que se vê, ou, nesse caso, se impõe a partir de visões estereotipadas do “bom gosto” e de privilégios cordiais que fariam Sérgio Buarque corar no paraíso.

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