Reflexões Sobre a Primavera Árabe

Sílvia Ferabolli

Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 2 – 28 de maio de 2011

Dezenas de eventos, centenas de artigos, milhares de comentários na internet. O que já se convencionou chamar de primavera árabe – ou o conjunto de manifestações que vem ocorrendo no mundo árabe desde que o tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo, gerando a onda protestos que derrubou os presidentes Ben Ali e Hosni Mubarak e que ameaça os regimes sírio, iemenita e barenita – ainda é um fenômeno de causas e consequências indefinidas. Contudo, algumas características marcantes desse “momento histórico árabe” já começam a ser percebidas por alguns estudiosos da área, tais como Charles Tripp, Sami Zubaida e Nadim Shehadi. Abaixo, uma síntese das ideias que esses autores vêm defendendo no que concerne ao recente “levante” árabe e que podem lançar luz sobre os caminhos que esse debate vai tomar nos próximos meses – ou mesmo nos próximos anos.

A principal característica identificada por Sami Zubaida, autor, dentre outros, de Beyond Islam: a new understanding of the Middle East (I.B. Tauris, 2011) é a ausência de slogans islâmicos na primavera árabe. É importante entender que o islamismo não é uma “coisa”, mas um “idioma” através do qual várias vertentes ideológicas se manifestam. Segundo Zubaida, o Islã conservador (muitas vezes aliado aos regimes) é o que restou depois de décadas de repressão e é por isso que os slogans islâmicos não estão presentes na maior parte dos protestos que varrem os países árabes. Existe um pragmatismo voraz nas expressões dos manifestantes, que clamam por empregos, serviços, democracia e melhores condições de vida – os slogans ideológicos vazios (sic) contra o imperialismo ocidental e israelense não estão presentes na maior parte das manifestações.

Para o autor de A History of Iraq (Cambridge University Press, 2007, 3rd ed.), Charles Tripp, reclamar física e simbolicamente o espaço público é uma das principais características da primavera árabe. Existe, segundo ele, uma tentativa estratégica e simbólica de dominar o espaço público, o que pode ser visto nas representações materiais (grafites, aglomerações, passeatas) que tem uma ressonância simbólica direta: a ideia de reocupar o lugar que deveria pertencer ao público. O que antes era um espaço disciplinador – praças com estátuas de Mubarak e Kadafi, ruas decoradas com pôsteres de Bashar al-Assad e de Ali Abdullah Saleh, controladas por policiais que vigiavam o fluxo dos transeuntes – transforma-se em espaço para mobilização popular. As humilhações do regime eram públicas (policiais esbofeteando civis era uma cena comum no Egito e ainda o é na Síria) – então agora o público humilha seus governantes perante o mundo. De vítimas, os manifestantes passam a mestres do espaço publico.  Tripp também percebe uma clara tentativa de redefinir o significado de “lealdade à nação”. Quem se levanta contra o regime está servindo a interesses de outros (ver Rei do Bahrein culpa Irã por revolta xiita, Estadão 22/03/2011; e Kadafi acusa ocidentais de “complô colonialista”, Zero Hora 09/03/2011). Atos de levante políticos são interpretados como atos de traição e líderes afirmam em seus pronunciamentos públicos que aqueles que defendem o regime são leais à nação – os insurgentes, traidores. De maneira inversa, manifestantes carregam faixas escritas “Assad traidor da nação síria”. Uma terceira característica desse momento árabe percebida por Tripp é a unidade performática: no auge dos protestos na praça Tahir, cristãos cuidavam muçulmanos enquanto esses rezavam e, por todo o Egito, muçulmanos protegiam igrejas cristãs. Contudo, alguns grupos entoavam a seguinte canção de protesto na Síria “Alawitas para o caixão e para Beirute os cristãos”, numa demonstração clara de que a performance da unidade pública contra a tirania de interesses privados pode rapidamente dar lugar a demonstrações explícitas de clivagens políticas, sociais e religiosas. Por fim, se é verdade que aqueles que fazem a revolução raramente são aqueles que assumem o poder, fica fácil entender porque para Tripp o maior desafio será institucionalizar a tomada do espaço público. Passado o entusiasmo inicial, como será institucionalizado esse novo poder público em países como o Egito e a Líbia?

Para Nadim Shehadi, ex-diretor do Centro de Estudos Libaneses da Universidade de Oxford e atual expert em Oriente Médio e Norte da África da Chatham House, a principal característica da primavera árabe é que ela nos obriga a repensar o que entendemos por estabilidade e ordem. Para um investidor internacional o Egito não parecia um porto de paz e estabilidade em novembro do ano passado? Shehadi se pergunta que tipo de ordem está sendo mantida no mundo árabe, a que custo e, acima de tudo, quanto ódio e frustração política em ebulição existe por baixo de supostas “ordens” como aquelas que reinam na Arábia Saudita. Além disso, Shehadi questiona o comportamento ambíguo da comunidade internacional em relação à Síria. Segundo ele, ambiguidade para um ditador significa “apoio”: a posição adotada pela Europa e os Estados Unidos é entendida por Assad como uma licença total para matar. Não pode haver ambiguidades nos discursos de líderes políticos internacionais em relação à Síria – a que mais recebeu apoio ocidental até agora – porque ditadores simplesmente não entendem essa forma de discurso.

A cautela demonstrada pela nossa presidente e pelo ministro das relações exteriores no que tange a pronunciamentos públicos sobre o tema deve-se, em parte, aos imensos interesses políticos e econômicos que existem em jogo no que concerne as nossas relações com o mundo árabe. Temos a maior concentração de árabes fora do mundo árabe, uma pauta de exportações diversificada para a região que inclui aeronaves, tratores, máquinas e equipamentos para a construção civil e fomos os idealizadores da cúpula América do Sul – Países Árabes, um fórum de dialogo trans-regional que visa estreitar as relações entre nós e nossos parceiros árabes. O Brasil tem um patrimônio político acumulado com o mundo árabe que não pode ser posto em risco e é por isso que a chancelaria brasileira tem se mostrado tão cautelosa. A academia, por outro lado, poderia ser bem mais ousada…

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