Barry Buzan e o Globalismo Descentralizado

Silvia Ferabolli

Boletim Mundorama, 18 de maio de 2011

O globalismo descentralizado de Barry Buzan define um mundo que opera dentro de uma lógica de poder mais distribuído e menos concentrado, onde as regiões  terão mais autonomia para trilhar seus próprios caminhos. A posição que os Estados Unidos ainda mantêm é frágil e é bastante plausível argumentar que eles estão perdendo a capacidade de continuar liderando o sistema – e que ninguém ocupará o seu lugar porque a era dos super-poderes simplesmente acabou (ver A World Without Superpowers: de-centered globalism. LSE IDEAS and International Relations Department public lecture).

Para que se possa discutir o significado de um mundo de globalismo decentralizado cuja principal característicaé a inexistência de super-poderes faz-se necessário definir, primeiramente, o significado de “super-poder”. É importante ressaltar que existe uma diferença significativa entre super-power egreat-power. No primeiro caso, o poder se espalha através do globo e existe a capacidade de operar globalmente e, inclusive, de dominar o sistema. Um super-poder é aquele que desempenha – ou pode desempenhar – um papel hegemônico no sistema. No segundo, existe a influência em mais de uma região do mundo, como no caso da União Europeia, por exemplo, mas não existe capacidade de hegemonia sistêmica. Por fim, existem os poderes regionais, como o Brasil que, como o próprio nome diz, tem poder circunscrito a sua própria região.

Debates em torno da uni ou multipolaridade tendem a ser centrados nos Estados Unidos. No primeiro caso, os Estados Unidos permanecem sendo líderes incontestes do sistema; no segundo, além dos Estados Unidos, China e União Européia também se revelam importantes pólos de poder global. Contudo, existe um terceiro cenário, qual seja, a simples inexistência de um superpoder. O mundo não mais se divide entre aqueles que estãocom ou contra os Estados Unidos. Hoje, existe uma terceira opção: simplesmente não se importar com os Estados Unidos!

Na verdade, o que gera esses debates intermináveis sobre os contornos do mundo pós-Guerra Fria é a insistência por parte dos pesquisadores de definirem se os Estados Unidos são o único super-poder, se a China tornar-se-á o proximo super-poder ou se o mundo terá diversos super-poderes. Parece difícil para a maioria dos estudiosos de RI entender que é possível, sim, um mundo sem super-poderes. Partimos do pressuposto de que os super-poderes sempre existiram, mas uma perspectiva histórica mais longa nos revela que isso simplesmente nãoé verdade. Éapenas com o advento da revolução industrial que se cria um gigantesco hiato entre os poderes, permitindo a surgimento dos super-poderes. A existência de super-poderes é um processo histórico localizado e agora presenciamos o fim dessa eracom a ascensão do “resto” (clara referência do autor a dicotomia “the west and the rest” e, talvez, também ao The post-American world, de Fareed Zakaria). A existência de super-poderes é um fenômeno “peculiar” e não “natural”. O hiato aberto pela revolução industrial está se estreitando e está chegando próximo do fim. Não hádúvida de que os Estados Unidos são, ainda, um super-poder, mas logo deixarão de ser e ninguém ocupará o seu lugar porque a era dos super-poderes simplesmente acabou.

Aqueles que vêem os Estados Unidos como hegêmonas absolutos do sistema tendem a focar excessivamente nas capacidades materias do país, quando as capacidades ditas “sociais” são muito mais importantes nos dias de hoje. Os Estados Unidos continuam sendo, de longe, os que mais investem no desenvolvimento de sua capacidade militar, mas sua hegemonia global dá-se mais pelo dito poder “social” – conceito que irá se aproximar, mas não se igualar, àquele de poder “brando” de Joseph Nye –  de ser seguido sem contestação pela Europa e pelo Japão do que propriamente pelo seu poder de coerção.

Por que a legitimidade do papel hegemônico norte-americano no sistema está gradualmente se esvaziando?  Sem dúvida, o fim da Guerra Fria deve ser apontado como principal culpado. As políticas norte-americanas que pareciam palatáveis aos olhos do mundo exatamente por causa do inimigo comum, agora revelam-se intoleráveis. Além disso, os Estados Unidos simplesmente não são mais um modelo a ser seguido pelo resto do mundo. E por que? 1) Porque o “American way of life” não é mais concebível em um mundo cada vez mais preocupado com questões ambientais; 2) Porque o apoio norte-americano a Israel não é mais aceitável em um mundo que preza cada vez mais o respeito aos direitos humanos e às leis internacionais; 3) Porque os Estados Unidos são os únicos que se sentem ameaçados pela ascensão chinesa e não há nenhum indício de que ações suas contra o gigante chinês serão apoiadas, pois enquanto a China continuar “se comportando” a União Europeia não se incomodará com o seu crescimento; 4) Porque o fracasso das diretrizes do Consenso de Washington revelaram que os Estados Unidos não podem mais oferecer soluções para os problemas econômicos mundiais; e5) Porque a guerra contra o terror minou a capacidade dos Estados Unidos de manterem-se como porta-vozes dos direitos humanos e da agenda liberal. Por fim, a manutenção da hegemonia global necessita de uma sólida base de apoio nacional. Porém, existe um número crescente de vozes dentro dos Estados Unidos que criticam as possibilidades – e limitações – abertas pela liderança global norte-americana.

Como pode-se perceber, os Estados Unidos ainda são um super-poder, mas sua posição é frágil e é bastante plausível argumentar que eles estão perdendo a capacidade de continuar liderando o sistema – e que ninguém ocupará o seu lugar. Por que a China não substituirá os Estados Unidos? Porque ela simplesmente não tem as capacidades sociais necessárias para assumir a posição de poder hegemônico global – e muito menos tem capacidade material para tanto. Os Estados Unidos tinham/têm como aliados a Europa e o Japão. Quem são os amigos da China? “Apontem um único player global ou poder regional que está com a China e não abre”, desafia Buzan. Ainda, as políticas chinesas são low-profile, sua orientação política ainda é centrada em si mesma e ao chamado “excepcionalismo chines”, faltando a ela o apelo universal que os Estados Unidos tinham/têm. O modelo norte-americano de “city upon the hill” era para ser admirado e copiado; o chinês é para ser entendido como algo único, próprio e exclusivo da China. A mensagem que vem de Beijing é bastante clara e muito razoável: “nós temos1/5 da população mundial para alimentar. Se conseguirmos fazer isso, essa será nossa maior contribuição para a humanidade”. Objetivo justo e louvável, diga-se de passagem, mas que enfraquece as capacidades materias chinesas. Por fim, existe uma clara indisposição chinesa para engajar-se com os problemas do restante do mundo; o país não “vende” idéias e não tem uma ideologia coerente capaz de convencer os outros a copiarem o seu modelo e, talvez um dos elementos mais significativos dessa discussão, a China não foi presenteada com o vácuo de poder que os Estados Unidos foram no final da II Guerra Mundial.

Quanto a União Européia, essa não tem inimigos, parece ser um bom modelo a ser seguido – ótimas capacidades sociais – e seus recursos de poder material não são desprezíveis. Porém, “ninguém na União Européia quer que ela se torne o poder hegemônico global” (ênfase de Buzan). Nem as populaçõesnem as elites políticas desejam esse papel para a UE. Ninguém quer arcar com os custos de estar na pele de um super-poder. Esse é um trabalho muito oneroso e muito dispendioso que a União Européia, definitivamente, não quer fazer.

O cenário mais provável para o mundo (pós-americano?)parece ser a de reforço do processo de regionalização, com alguns grandes poderes se sobressaindo, como China, Japão, União Européia e, lógico, Estados Unidos. Basicamente, isso é o globalismo descentralizado do qual Barry Buzan fala: um mundo que opera dentro de uma lógica de poder mais distribuído e menos concentrado.E por que isso vai acontecer?Porque existe uma lógica anti-hegemônica que busca respeitar cada vez mais o uso da diplomacia e do recurso a instituições internacionais para mediar conflitos internacionais; porque todos temem a guerra – seja em que escala que for; porque não existem mais ideologias dicotômicas que permitem a polarização do mundo; porque em um mundo descentralizado existe mais espaço para a cooperação; e, porque, acima de tudo, o projeto liberal universal simplesmente não foi e não será realizado e em um mundo descentralizado as regiões terão mais autonomia e não serão mais tão cobradas a aceitar o projeto liberal universal.

O Ocidente não émais o “dono” do futuro – outras regiões tem o direito de tentar trilhar seus próprios caminhos (referência ao Islã político?). Com o fim da Guerra Fria e o esvaziamento do Consenso de Washington parece mais clara do que nunca a percepção geral de que não existem soluções globais, mas apenas regionais. O que está havendo éuma volta à ordem pré-moderna de distribuição mais regular do poder em escala global e na qual uma única civilizaçãonãopode impor sua visão de mundo sobre o restante da humanidade: tendência que aponta para a mudança de uma idéia liberal universal ocidental para a ascensão do poder da diversidade cultural.

(Será?)

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