Sarkozy e La ronde infinie des obstinés

 Cláudio César Dutra de Souza 

Boletim Mundorama, 22 de setembro de 2010 

Ao assumir a presidência em maio de 2007, Nicolas Sarkozy assim prometia: “La réforme de l’État, enfin, doit sortir des sujets de colloques, pour se traduire par des décisions”;“La réforme de l’État, je l’ai promise et je la ferai”. Entretanto, passados três anos de seu mandato, a sua disposição em levar adiante o projeto de reformas de Estado, bem como a sua popularidade, vem diminuindo consideravelmente face a forte resistência oriunda de uma oposição que sequer cogita discutir qualquer medida nesse sentido. O título desse artigo faz menção a uma forma inusitada de protesto contra as propostas de reforma universitária na França, anunciadas já nos primeiros meses do governo Sarkozy pela ministra do ensino superior e pesquisa, Valerie Pécresse. Iniciada no dia 23 de março de 2009, em frente à prefeitura de Paris, “a volta infinita dos obstinados” consistia, tão somente, em um grupo de pessoas andando em círculos, 24h por dia, a fim de mostrar a sua contrariedade em relação dois pontos nodais do projeto de Pecresse: a autonomia universitária e o novo estatuto do professor pesquisador. A iniciativa de tal empreendimento partiu dos estudantes da universidade Paris VIII e rapidamente contou com o apoio e participação de alunos e professores de toda a França, tendo contabilizado mais de mil horas de atividades ininterruptas juntamente com a greve da maioria das universidades que durou por volta de quatro meses.

No último 07 de setembro, mais uma greve geral paralisou a França, com a participação de cerca de um milhão de pessoas contrárias a mudança na previdência social do país, cujo ponto mais polêmico é a elevação da idade mínima para a aposentadoria, parcial, dos servidores públicos e privados de 60 para 62 anos e integral,  de 65 para 67 anos. O governo vem enviando sinais de que irá capitular novamente face ao descontentamento das ruas da mesma forma como em 1995 Chirac foi obrigado a retroceder no projeto de reforma previdenciária por causa das greves que paralisaram o país inteiro. O resultado da reforma universitária, que custou aos alunos o segundo semestre de 2009, foi pífio. A ambição do governo em instituir a competição por verbas entre os departamentos, conforme a produtividade, tal como é na Inglaterra e nos Estados Unidos, foi sumariamente abandonada, bem como o novo estatuto do professor-pesquisador, que permanecem livres para publicar os seus artigos onde, como e quando bem entenderem.

Podemos criticar o sistema de pontuação das principais revistas científicas imternacionais, bem como a sua linha editorial que obriga, de acordo com alguns intelectuais franceses, uma formatação do pensamento nos moldes americanos. Entretanto, é bem verdade que as maiorias das universidades francesas vem enfrentando um processo de franca decadência em sua capacidade de influência e produção de saber.  A elite do país há muito freqüenta as Grandes Écoles, na qual existem mecanismos mais rigorosos para a seleção de alunos e professores e que garantem os melhores empregos após a formação. Além disso, o governo aposta em uma questão que vem sendo debatida na Europa nos últimos anos: afinal, para que servem as ciências humanas? Sociologia, filosofia, história e afins atravessam uma grave crise de identidade com seus formandos tendo enormes dificuldades de inserção no mercado profissional, muitos abandonando seus cursos pela metade ou atuando em áreas radicalmente distintas após se formarem.

A reforma universitária, previdenciária e tantas outras prometidas por Sarkozy não estão ocorrendo e seu governo parece estar perigosamente fora de rumo. Sarkozy vem enfrentando sucessivas quedas em pesquisas de opinião e, neste mês de setembro, seu índice de aprovação atingiu 32%, o mais baixo desde o início de seu governo. Situação semelhante ocorreu com um outro “jovem líder” que, em 1974 prometia uma “nova era para a política Francesa” e que faria as mudanças que a França precisava para adequar-se às mudanças internacionais. Seu nome? Valery Giscard d’Estaing, o único presidente francês a não se reeleger nos últimos 30 anos, tendo sido sucedido em 1981 pelo candidato de esquerda François Mitterand, o qual reduziu a idade de aposentadoria de 65 para 60 anos, seguindo as tradições da época, que preconizavam um amanhã em que as pessoas trabalhariam cada vez menos.

Tais profecias se diluiram devido a crise do Estado providência nos anos 1990. Em artigo publicado na Folha de São Paulo (24 de dezembro de 1995), Luis Carlos Bresser Pereira chamava atenção para o fracasso das tentativas do presidente Chirac em implementar uma agenda de reformas no país, tal como estava sendo feito no Brasil naquele período. Bresser Pereira identificava uma certa estrutura autoritária no processo de implementação vertical das reformas no governo Chirac e que se repetem, passados 15 anos, na postura atual de Sarkozy. A falta de uma ampla e esclarecedora discussão sobre as reformas reforça o que Bresser Pereira identificou, tanto no Brasil como na França, como “o corporativismo, transformado em triste bandeira de uma velha esquerda, e o patrimonialismo, que sobrevive indômito na velha direita clientelista”. 

A França é um dos últimos países desenvolvidos no qual a velha divisão entre “esquerda” e “direita” se atualiza constantemente, não sendo raro algumas aproximações bizarras entre tais ideologias, principalmente quando se trata de efetuar a crítica de um capitalismo fortemente centralizado no Estado. Tais idiossincrasias se refletem nos números que apontam que 70% dos franceses apoiam as greves, porém, 53% consideram aceitável a elevação da idade de aposentadoria de 60 para 62 anos e ainda 93% consideram que os produtores rurais franceses “reclamam demais” (The Economist, 11 de setembro de 2010). Supondo que a eleição de um presidente como Nicolas Sarkozy tenha refletido um real desejo de mudanças da população, fica claro, igualmente, que o custo de tais mudanças dividem a opinião pública que, no final, se inclina a tolerar não mais do que alguns ajustes cosméticos que empurram as decisões mais difíceis para um fututo indeterminado. A esquerda francesa lança o anátema de “neoliberais” em direção aos que levantam a voz em prol das reformas. Entretanto, ela não apresenta altrenativas que não sejam a manutenção dos padrões de vida herdados dos “30 anos gloriosos” após a segunda guerra mundial, em uma postura que ironicamente inverte as posições clássicas entre conservadores e progressistas.

Em sua campanha presidencial, o candidato Sarkozy foi bem sucedido em falar aos franceses que estes deveriam trabalhar mais e se arriscar mais e que a manutenção dos privilégios de alguns era pago com o sacrifício de outros. Tais discursos seduziram uma parcela significativa da sociedade francesa formada pela pequena classe média e trabalhadores autônomos que absorvem melhor o discurso da meritocracia e do valor do trabalho engendrado por Sarkozy. “La France qui se lève tôt” há muito deixou de acreditar na “exceção francesa”. O aumento da insegurança nos subúrbios, do desemprego entre os jovens e a invisibilidade social desses grupos contribuiu para que o discurso Sarkozista encontrasse solo fértil para se desenvolver e seduzir esse eleitorado que cedia pouco a pouco ao discurso de extrema direita do Front National de Jean Marie le Pen.

“La ronde infinie des obstinés” pode ser uma boa metáfora do estado atual do governo Sarkozy, que gira em torno de seu eixo sem chegar a lugar nenhum. Além de não estar conseguindo levar adiante as reformas prometidas, Sarkozy ainda arrisca o pouco capital político que ainda lhe resta com medidas polêmicas como a proibição do véu completo para muçulmanas e a deportação de centenas de ciganos para seus países de origem.  Tais medidas lhe conferem um ganho político mínimo em comparação as críticas que lhe são endereçadas por várias instâncias, entre elas o parlamento europeu. Para muitos, Sarkozy demonstra uma incapacidade de convívio com o multiculturalismo atual e insiste nas antigas formas de arranjo do Estado-nação que vem sendo debatidas com uma frequência cada vez maior na União Européia.

Preocupado com o seu futuro político nas eleições de 2012 e gradualmente sendo abandonado pelos seus apoiadores, que temem igualmente as próximas eleições, Nicolas Sarkozy corre o risco de ter um fim melancólico, como se a explosão de energia inicial fosse insuficiente para levá-lo ao destino almejado e agora, cansado e sem fôlego, se constituisse em uma presa fácil do sistema que um dia pensou que pudesse modificar.

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