Roberto Freire e Austregésilo Carrano morreram…mas passam muito bem!

Cláudio César Dutra de Souza

Inédito

“Eu só falei de amor em toda a minha vida, nos 25 livros que publiquei, mas não tenho a menor explicação para ele” (Roberto Freire).

Eles morreram no mês de maio de 2008, respectivamente nos dias 23 e 27, na cidade de São Paulo. Dois brasileiros que dedicaram suas vidas para que as nossas fossem menos injustas, caretas e autoritárias. Roberto Freire e Austregésilo Carrano Bueno sentiram na carne o grilhão pesado da ditadura, do fascismo psiquiátrico, da ditadura, enfim, de instituições rígidas e prontas a assassinar dentro de cada indivíduo a sua criatividade, a sua liberdade e a sua sexualidade em nome de uma vaga idéia de bem estar. Em nossos tempos em que os atos de fumar, beber e fazer sexo livremente são objetos de um feroz patrulhamento ideológico, civil, estatal e religioso, o desaparecimento quase ao mesmo tempo de Freire e Carrano pode simbolizar o fim de uma era utópica na qual pensávamos-nos libertos de estruturas que insistem em acorrentar-nos a um passado hipócrita, vitoriano e certamente muito chato.

Tive o prazer de cruzar com esses dois homens durante o meu percurso de vida. Roberto Freire veio algumas vezes para Porto Alegre comunicar as suas idéias a seu público. Ideais que ele bebeu da fonte magistral de W. Reich, de Freud (antes de esse ser assassinado por seus discípulos), de maio de 68, dos anarquistas e de artistas que no decorrer da história nos propiciaram formas menos medíocres de existir e de ter saúde e felicidade, bem como de saber suportar as dificuldades e as armadilhas que a vida nos traz.

Freire criou a sua própria escola terapêutica, a Somaterapia, que era construída sob os princípios reichianos da relação entre o corpo e as emoções, da antipsiquiatria, da gestalt e da capoeira, tendo como princípio ético o anarquismo. Quem já participou das vivências propostas pela Soma é certo que jamais irá esquecê-las. Muitas vidas mudaram de rumo após as vivências da Soma. Já outras vidas preferiram permanecer estáticas, pois muitas vezes não era fácil segurar a onda da proposta radical de Freire, pois é muito fácil descobrirmos, não sem certo horror, o fascista autoritário que habita dentro de nós, esse Zé – Ninguém que tanto alimentamos e que nos conduz a ruína emocional.

O percurso de Roberto freire é um notável ciclo de rupturas com um passado absolutamente comprometido com o código canônico da Psiquiatria e da Psicanálise que não raro se imiscuíam na promoção do “Homus Neuróticus” a partir de tendenciosas e pequeno-burguesas leituras freudianas adaptadas para o “bem viver” e para a manutenção do modelo familiar sacramental de onde Freud extraiu com genialidade os pressupostos da teoria psicanalítica. Psiquiatra de formação e psicanalista membro da IPA (International Psychoanalyses Association) que é o quartel general da legitimidade psicanalítica desde a década de 1920, visto que teve como fundador o próprio pai da psicanálise, Roberto Freire soube se libertar de todas essas amarras institucionais e, paradoxalmente, manter-se fiel enquanto psicanalista no sentido de empreender a busca pela sua verdade e o que ela poderia ter de bom ou de doloroso. Nesse processo ele influenciou certamente toda uma geração que manteve acesa a faísca da contestação e da busca por formas menos sufocantes de se viver aqui nesse planeta.

Austregésilo Carrano Bueno dedicou a sua vida a denunciar as injustiças e arbitrariedades dos profissionais e clínicas de saúde mental no Brasil e tive a oportunidade de conhecê-lo durante o Fórum Social Mundial de 2003. Seu livro, “Canto dos Malditos”, já é há tempos indicado por algumas universidades brasileiras na área de psicologia clínica para a preparação de novos profissionais da Saúde Mental, entre elas a USP, UNB, PUC Rio, FUMEC, PUC BH, UEL, FMU e NEWTON PAIVA. A obra originou o filme “Bicho de Sete Cabeças” (2001), dirigido por Laís Bodansky, que recebeu 44 prêmios, sendo 36 prêmios nacionais e oito prêmios internacionais.

Ambos, livro e filme, mostraram a realidade nua e crua das nossas instituições psiquiátricas e foram dispositivos fundamentais para a discussão sobre a Reforma Psiquiátrica no Brasil que já é uma realidade desde a Lei nº. 10.216 de seis de abril de 2001, também conhecida como Lei Paulo Delgado que instituiu um novo modelo de tratamento aos transtornos mentais no Brasil. Por conta de sua militância, Austregésilo sofreu vários processos que pediram a cassação de seu livro mais famoso em ações judiciais reparatórias. Os casos mais famosos foram a da Federação Espírita do Paraná, proprietária do Hospital Espírita Bom Retiro. A obra, lançada no começo dos anos 1990, foi reeditada pouco depois da estréia do filme e teve sua comercialização proibida pela Justiça em 2002, a pedido da família do psiquiatra que atendeu Carrano, sendo recolhida das livrarias do país e só tendo permissão para ser reeditada em 2004 após inúmeras campanhas e protestos pelo Brasil afora. Igualmente foi ameaçado de morte e condenado pela justiça do Paraná a pagar altas somas em dinheiro pelas suas denúncias contra as clínicas e os profissionais envolvidos no seu caso e em outros tantos, tendo gasto praticamente tudo o que recebeu de direitos autorais da sua obra com a sua defesa e, segundo as suas palavras em 2003, ainda ficou devendo a indenização aos seus torturadores. As últimas notícias de Carrano ainda davam conta de sua batalha judicial com avanços e retrocessos em questões financeiras e judiciais, fato que agora já não tem mais a menor importância.

Confesso que fiquei um pouco perplexo com a pouca, ou quase nenhuma cobertura que a mídia deu às mortes de seres humanos tão emblemáticos. Contudo, não tardei a perceber o quanto estava sendo ingênuo em meu espanto. No mundo do século XXI parece não haver mais lugar para a mensagem que ambos dedicaram a vida para transmitir. Roberto Freire e Austregésilo Carrano representavam, cada um a seu modo, o inconformismo e a velha e boa rebeldia contra um sistema perpetuador de injustiças e que, paradoxalmente, atrai em nossos tempos cada vez mais indivíduos que se dirigem docilmente às suas entranhas. O sono da morte vai poupar Freire de assistir ao discurso cada vez mais moralista que é engendrado nas escolas e na rede pública de saúde acerca da sexualidade no que se refere à necessidade imperiosa de “proteção” contra um sexo que antes de tudo é um potencial produtor de doenças mais do que de prazeres. Na oposição entre o Apolíneo e o Dionisíaco tal como Nietzsche o entende no nascimento da “Tragédia” (1872), esse último vem tornando-se cada vez mais sufocado e atrelado a comportamentos irresponsáveis quando não mortíferos.

De forma alguma desejo fazer qualquer apologia contrária à prática do sexo seguro. Apenas penso que jamais vai existir uma relação sexual que preencha todas as exigências de segurança, conforto e higiene duramente cobrados de nossos adolescentes que se constituem em alvos preferenciais das campanhas de prevenção ao sexo de risco e que parecem preocupar-se tão somente com a relação física em si, esquecendo-se dos sentimentos e desassossegos que a regem. Em “Utopia e Paixão”, Roberto Freire & Fausto Brito (1984) nos dizem que “é uma contradição terrível: se não nos abrirmos totalmente para receber o outro nós não conseguimos amar. O amor não se faz com pedaços ou porcentagens. E se nos abrirmos inteiramente, estamos sujeitos ao risco da manipulação autoritária”. E também, acrescento eu, de uma contaminação por DSTs diversas, principalmente a AIDS, cuja prevenção é fundamental e deve ser feita de forma clara e laica, não devendo se tornar uma oportunidade para manipulações morais insensatas de cunho religioso como as que muitas vezes são feitas em zonas de maior vulnerabilidade social e que são as mais atingidas pela contaminação do HIV. A mistura de religião, preconceito e desinformação dificultam imensamente as tentativas de ações sérias empreendidas no sentido de aumentar a proteção sem que necessariamente isso sirva como um freio a livre expressão sexual.

Contudo, a sexualidade está cada vez mais viva e rendendo bons dividendos através da mega-indústria da pornografia e da masturbação que agora ganhou o nome moderno de “sexo virtual”. E o temos para todos os gostos na web. No entanto, parece que mais do que nunca o marasmo invade o nosso cotidiano nesse sentido. Pode ser um mecanismo interessante de contenção da libido o massacre incessante de filmes, fotos e todo um vasto conteúdo e material pornográfico que hoje temos a disposição como companheiras da nossa “miséria sexual”, segundo palavras de Freire. A pornografia, como já afirmava Jean Baudrillard em seu excelente livro “Da Sedução” (1992) não é de forma alguma o real do sexo, mas o hiper-real já que os ângulos e enquadramentos de um filme pornô nunca são vistos daquela forma por quem faz sexo realmente. É a “orgia do detalhe” que subtrai toda e qualquer dimensão dionisíaca do ato, reduzindo-o a uma aeróbica apolínea na qual o fluxo de gozos se assemelha ao fluxo enlouquecido de capitais em nossos tempos. Esperma e dinheiro se constituem em totens idolatrados em nossa cultura que preconiza um gozo perverso e absolutamente destituído do amor e da transcendência que têm o poder de nos fazer menos bélicos, recusando que a lógica produtiva tome conta de todas as esferas de nossa existência.

Da mesma forma em que avança o nosso embotamento sexual e sentimental, o controle químico das mentes e dos corpos é uma realidade assustadora. Já vão longe os tempos em que os baseados que Carrano fumava, e que justificaram o seu calvário, eram considerados como uma droga leve. Espero que Carrano não tenha assistido ao programa do Fantástico em que a Rede Globo bateu o seu próprio recorde em manipulação emocional e ideológica ao mostrar um adolescente britânico transtornado e violento pelo uso da Cannabis Sativa. Na onda interativa que varre o mundo de hoje os espectadores tinham o suposto direito de decidir o que os pais deveriam fazer em relação ao caso. O resultado foi que 44% decidiram que o melhor a fazer era internar. Sim, internar o menino por causa da maconha, exatamente como fizeram com Carrano há décadas atrás. Claro que imediatamente o programa mostrou dois irmãos, ambos “viciados em maconha” que ficaram seis longos meses em uma luxuosa clínica de reabilitação por obra e graça de sua compreensiva mãe. Na mesma matéria, havia um corte para a “precária situação” que vivemos na saúde pública devido à redução do número de ofertas de vagas para internação desse porte por obra e graça da Reforma Psiquiátrica.

Rever as leis da Reforma Psiquiátrica ou mostrar na mídia os familiares desesperados com a impossibilidade de mandar seus filhos para um hospício a fim de serem reabilitados não passa de estratégias cuidadosamente pensadas para que voltemos ao antigo modelo hospitalocêntrico de abordagem de transtornos diversos. Mesmo que saibamos que no Brasil a atenção primária (postos de saúde) é que resolve mais de 80% das necessidades de saúde da população, sendo que a atenção secundária (ambulatórios) abocanha mais uma fatia considerável e por fim, a atenção terciária, ou seja, os hospitais ficariam com menos de 10% da demanda real de atendimento. No caso da dependência química é óbvio que se supõe a internação em um hospital geral em certas circunstâncias, mas antes disso existiriam outras ações da parte da família e do Estado antes de decidir colocar qualquer cidadão em caríssimas e ineficientes clínicas particulares, ou mesmo nos antigos hospícios públicos.

De Roberto Freire já há muito tempo se dizia que suas mensagens eram ultrapassadas, fruto do desbunde que caracterizou uma determinada época e que no presente momento as discussões eram outras. Contudo, as utopias não possuem registros temporais, apenas se deslocam de acordo com o momento histórico. Por exemplo, vivemos hoje a utopia de inspiração norte-americana de uma sociedade sem drogas ditas ilícitas já que o país em questão nos bombardeia todo ano com um número considerável de drogas para todos os gostos. Nos anos 1980 os executivos se valiam da cocaína para manter o foco em suas atividades e ganhar energia para fazer render mais o seu trabalho, mas hoje tomam a Ritalina, igual as nossas crianças um pouco mais agitadas e desobedientes. Qualquer semelhança não será mera coincidência. Da mesma forma, podemos destacar a utopia do sexo seguro, asséptico e monogâmico como uma mensagem subliminar de nossos tempos na qual um encontro amoroso é sempre mediado por instâncias médicas, psicológicas, familiares e midiáticas, enfim toda uma scientia sexualis ao nosso dispor.

No volume I da “História da Sexualidade – A vontade de saber”, Foucault vai opor dois conceitos muito instigantes: A “ars erótica” e a “scientia sexualis”. A “ars erótica” seria própria de civilizações como Roma, Índia, China, que buscavam no saber sobre o prazer um dispositivo para, onde a verdade sobre o prazer é extraída do próprio saber. No ocidente configurou-se a partir de um momento histórico, localizado por Foucault a partir do séc. XVIII, toda uma scientia sexualis, onde o mecanismo da confissão seria central na produção de saberes sobre o sexo. Os ocidentais, por meios religiosos e médico-higienistas, são levados a confessar tudo e essa confissão estabelece uma relação de poder onde aquele que confessa se expõe, produz um discurso sobre si, enquanto aquele que ouve interpreta o discurso, redime, condena, domina. Em resumo, diga-me sobre o teu sexo e dir-te-ei quem és. Reich se dedicou de forma muito específica a denunciar os mecanismos de controle da sexualidade em obras como “Casamento indissolúvel ou relação sexual duradoura” (1936), a Revolução Sexual (1945), “Função do Orgasmo” (1927) e a sublime “Psicologia de Massas do Fascismo” (1946). Livros que falam acima de tudo de amor.

Esse artigo objetiva uma singela homenagem póstuma a esses dois homens que nos deixaram quase ao mesmo tempo e que foram fundamentais no reconhecimento de que um outro mundo é realmente possível. Creio que isso é necessário para contrapor aqueles que os acusaram e perseguiram duramente no decurso de suas existências, o nosso velho e bom conhecido “Zé Ninguém”. Esse indivíduo brilhantemente descrito por Reich na obra “Escuta Zé Ninguém” (1948-1957), desabafo do autor contra as perseguições e traições que sofreu na defesa de suas idéias e que culminaram com sua interdição e morte na prisão em 1957. “És tu o teu próprio algoz”; “És tu que aplaudes os Fuhrers da vida e os sustentas”, afirma Reich de forma semelhante a Freire e Carrano sempre disseram. Não é de pornografia, imoralidade, apologia a drogas e a desobediência civil, entre outras tantas bobagens, que se constitui a mensagem desses autores tão maltratados e ridicularizados pelas instâncias competentes no assassinato do ato amoroso. E é tão somente de amor que eles falaram o tempo inteiro e por amor que eles escreveram e militaram incansavelmente dedicando as suas vidas para que as nossas fossem menos tristes e miseráveis.

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