Archive | agosto 2009

Sobre Gaza, sobre Israel e sobre nós

Silvia Ferabolli e Cláudio César Dutra de Souza

Le Monde Diplomatique, fevereiro de 2009

Aqui na Europa, manifestações eclodiram por toda parte. Em Paris, uma marcha contra o holocausto palestino reuniu quase 100 mil pessoas. Em Londres, prédios universitários foram ocupados e milhares de estudantes reuniram-se em frente à embaixada israelense exigindo o fim do massacre contra o povo palestino. Outras capitais européias também assistiram várias formas de mobilização popular contra o avanço de Israel sobre o mais famoso bantustão do mundo – a Faixa de Gaza, o campo de extermínio daqueles que vivem a luta e morrem pela causa palestina.

Infelizmente, os milhões de cidadãos que expressaram sua repulsa contra a política israelense em manifestações que varreram o globo, não encontraram eco em suas ações por parte de seus chefes de Estado. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, foi o único líder de uma nação que ousou ouvir o clamor popular e expulsou o embaixador israelense de seu país. Tivessem outras lideranças seguido o exemplo de Chávez na América Latina, África, Ásia, Europa e América do Norte, o isolamento diplomático israelense seria tamanho que não haveria alternativa a Tel-Aviv a não ser o recuo. Contudo, esse não foi o caso. Para além dos clássicos e inócuos chamados de paz, nenhum presidente, primeiro-ministro, rei, chanceler ou sultão ousou desafiar Israel com aquela que é uma das mais radicais armas que a diplomacia internacional possui: a ruptura das relações diplomáticas e o erigir de pesadas sanções políticas e econômicas. Leia Mais…

Dom João VI, o AI-5 e a Resistência

Cláudio César Dutra de Souza e Silvia Ferabolli

Le Monde Diplomatique, fevereiro de 2008

O ano de 2008 é particularmente significativo para o Brasil. Comemoramos 200 anos da fuga da família real portuguesa à colônia, na companhia de 10 mil cidadãos influentes na corte. Também faz aniversário o AI-5 — Ato Institucional nº 5 —, que instituiu, em 1968, o que Elio Gaspari chama de “A Ditadura Escancarada”.

Ao transferir a corte portuguesa para o Brasil, Dom João VI efetivamente inventou um país. Até 1808, o Brasil não passava de uma colônia extrativista, que sustentava uma monarquia atrasada e absolutista, com os dias contados na esteira das grandes modificações iniciadas com a Revolução Francesa de 1789 e as guerras napoleônicas, que reescreveram o mapa de poder na Europa. Quando retornou a Portugal, em 1821, deixando o seu primogênito, D. Pedro I, como príncipe regente, o panorama do país havia mudado radicalmente. Era o nascimento efetivo de uma proto-nação, cujo desenvolvimento posterior já nos é bem conhecido. Leia Mais…

A triangulação conflituosa entre Estados Unidos, Irã e Israel

Silvia Ferabolli

Jornal Mundo Jovem nº 376, maio de 2007, página 5

As tensões crescentes entre Estados Unidos e Irã, em torno do programa nuclear iraniano, têm ocupado um espaço considerável na mídia. O foco dos noticiários, invariavelmente, recai sobre as tentativas diplomáticas, e ameaças de uso da força, por parte do governo norte-americano, contra a insistência do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, em não acatar as decisões do Conselho de Segurança da ONU que exigem o fim do programa de enriquecimento de urânio do país. De um lado, Ahmadinejad insiste que seu programa nuclear visa fins exclusivamente pacíficos; de outro, George W. Bush acusa o Irã de tentar construir ogivas nucleares, capazes de colocar em risco a segurança não só dos norte-americanos, mas, principalmente, de seu principal aliado no Oriente Médio, Israel. Dada a atual situação de extrema tensão que se configura nas relações entre Washington e Teerã, é válido questionar quais são as dinâmicas internas, nos Estados Unidos, que estão levando o país a considerar um ataque maciço contra o Irã. Leia Mais…

O retorno do(s) idiota(s)

Cláudio César Dutra de Souza e Silvia Ferabolli

Le Monde Diplomatique, dezembro de 2007

Em 2007, completou-se uma década da publicação de um livro intitulado Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, cujos autores são o colombiano Plínio Apuleyo Mendoza, o peruano Álvaro Vargas Llosa e o cubano Carlos Alberto Montaner. Nessa obra, os referidos escritores fazem uma apreciação sarcástica dos textos, ações e idéias pertinentes à luta das esquerdas na América Latina, embasada em um duvidoso humor, que busca ridicularizar todos aqueles que construíram, no século 20 a história da resistência contra as ditaduras e o liberalismo selvagem no continente. Livros assim conferem fama instantânea a seus autores. São leves, fáceis de ler e descompromissados com uma análise séria daquilo que pretendem simplesmente demolir, utilizando a velha tática da terra arrasada e jogando com os medos e preconceitos de uma classe média economicamente combalida — reforçando-os, e angariando novos soldados às suas pequenas tropas de elite de extrema direita. Leia Mais…

Todas as mulheres do mundo

workingwomenCláudio César Dutra de Souza e Silvia Ferabolli

Le Monde Diplomatique, maio de 2008

Pegamos emprestado o título do filme de Domingos de Oliveira, de 1966, com Paulo José e a paradigmática Leila Diniz no auge de sua beleza e talento, para fazer algumas reflexões pertinentes sobre o panorama histórico da condição feminina.

Há milênios, a mulher é submetida por formas mais ou menos explícitas de violência e contenção. A primeira é descrita no gênesis bíblico, no qual nossa mãe Eva é alçada a uma condição de inferioridade ao homem, primeiro por ser um “subproduto” de uma parte de seu corpo e não o resultado vivo do sopro divino como fora Adão. Em seguida, Eva é feita culpada pela expulsão do Éden, ao tomar parte ativa no processo de desobediência divina, ao dar ouvidos à serpente e, por conseqüência, nos jogando para fora da boa vida paradisíaca. Leia Mais…

A díade esquerda/direita ainda sobrevive?

Cláudio César Dutra de Souza e Silvia Ferabolli

Le Monde Diplomatique, novembro de 2007 (publicado com o título “Por que ainda somos diferentes?”)

Existem duas obras paradigmáticas à reflexão sobre a díade esquerda-direita, ambas publicadas em 1994: Direita e esquerda — razões e significados de uma distinção política, de Norberto Bobbio e Para além da esquerda e da direita, de Anthony Giddens. Os dois autores, cada qual à sua maneira, buscavam refletir sobre os rumos a serem tomados pelos órfãos do socialismo que, no imediato pós-Guerra Fria, estavam epistemologicamente enlutados pelo que percebiam ser o fim de suas utopias mais caras, ainda sob o impacto do mundialmente famoso artigo de Francis Fukuyama – “O fim da história e o último homem”, de 1992. Bobbio defendia a legitimidade da díade esquerda-direita para analisar e entender o cenário político atual. Já Giddens acreditava que o mundo mudou radicalmente e que, por isso, os conceitos de esquerda e direita são anacrônicos. Fukuyama, por fim, dizia acreditar que a humanidade chegara ao seu estágio máximo de evolução com a universalização da democracia liberal ocidental. Leia Mais…

A França na encruzilhada das reformas

W300px_1306-mid-franceCláudio César Dutra de Souza

Meridiano 47 n. 106, mai. 2009 [p. 44 a 45]  

Em O Crepúsculo dos ídolos ou a Filosofia a Golpes de Martelo, Nietszche indagava: Um asno pode ser trágico? Perecer sob um fardo que não se pode nem carregar nem rejeitar?

No ano da França no Brasil, essa reflexão nos convida a pensar sobre o momento delicado que o país de Montesquieu, Zola e Foucault atravessa neste momento. Os planos de reformas propostos pelo governo Sarkozy sofrem uma oposição social de tamanha envergadura que alguns já ousam compará-la com o mítico maio de 1968. Leia Mais…