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	<title>Conexões Invisíveis</title>
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	<description>Política, Estudos Culturais e Relações Internacionais</description>
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		<title>Amartya Sen e o &#8220;humano&#8221; como índice de desenvolvimento</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Jan 2012 13:08:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conexões Invisíveis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estudos Culturais]]></category>
		<category><![CDATA[Amartya Sen]]></category>
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		<description><![CDATA[Cláudio César Dutra de Souza Inédito Para introduzir o complexo pensamento do economista indiano Amartya Sen, vale mencionar a crítica de Richard Reeves, professor na Universidade de Southern California, sobre seu último livro, The Idea of Justice (2009). Segundo Reeves, o domínio de diferentes áreas do conhecimento seria coisa do passado visto que os acadêmicos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conexoesinvisiveis.com&amp;blog=9050773&amp;post=573&amp;subd=claudioesilvia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cláudio César Dutra de Souza</p>
<p>Inédito</p>
<p><a href="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2012/01/sen1.jpg"><img class="alignleft  wp-image-575" title="sen" src="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2012/01/sen1.jpg?w=200&#038;h=227" alt="" width="200" height="227" /></a>Para introduzir o complexo pensamento do economista indiano Amartya Sen, vale mencionar a crítica de Richard Reeves, professor na Universidade de Southern California, sobre seu último livro, The Idea of Justice (2009). Segundo Reeves, o domínio de diferentes áreas do conhecimento seria coisa do passado visto que os acadêmicos de hoje são estimulados a perseguir a hiper-especialização até o esgotamento total de um assunto. Esse tipo de pensamento compartimentado pode produzir teorias tão exatas quanto reducionistas e que carecem, em sua base, de uma reflexão mais subjetiva acerca dos fenômenos estudados. Amartya Sen, laureado com o prêmio Nobel de Economia em 2008 e professor titular no Departamento de Economia da Universidade de Harvard, transita pelas áreas da filosofia, sociologia e psicologia – além da economia – utilizando-as como ferramentas de análise em questões ligadas a justiça, a desigualdade e o desenvolvimento.  <span id="more-573"></span><br />
Bem antes da última crise financeira mundial, que acabou por ressuscitar o discurso da regulação dos mercados, Amartya Sen fazia parte de um pequeno grupo de economistas que defendiam o papel do Estado, indo na contramão da onda neoliberal que varreu o mundo na década de 1990.  Para ele, o sucesso de uma economia liberal dependia não apenas do dinamismo do mercado, mas também de mecanismos de regulação e controle que pudessem evitar que a especulação e a busca do lucro de uns poucos colocassem em risco a população como um todo. Devemos a Amartya Sen, juntamente com o economista paquistanês Mahbub Ul Haq, a criação Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) para o programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em 1990. O IDH tenta complementar os dados que são levantados pela mensuração clássica do Produto Interno Bruto (PIB) por habitante através de uma nova escala de avaliação que supõe que a riqueza de um país não seria necessariamente responsável pelo bem estar de seus habitantes, já que existiriam outras questões em jogo, como o acesso a educação e saúde gratuitas e de qualidade, dentre outras.<br />
De acordo com Amartya Sen, a medida do PIB é limitada e, quando utilizada sozinha, se constitui em um verdadeiro desastre já que os indicadores de consumo e produção dos mercados não dizem grande coisa sobre a liberdade e o bem estar que dependem de uma organização social mais complexa tais como uma distribuição mais justa de renda. Para o cálculo do IDH, leva-se em conta a análise de três fatores: 1) O PIB per capita, depois de corrigi-lo pelo poder de compra da moeda de cada país, dentro do padrão dólar PPC (paridade do poder de compra, que elimina as diferenças de custo de vida entre os países); 2) a longevidade, que se apóia na expectativa de vida ao nascer; e 3) a educação, avaliada pelos índices de analfabetismo e pela taxa de matrícula em todos os níveis de ensino. As três dimensões são avaliadas dentro de uma formula matemática que irá gerar o IDH de cada país de zero (pior IDH) até 1 (melhor IDH).<br />
O IDH reflete sempre a situação mundial com dois anos de atraso. Isso significa que os dados mais atualizados do PNUD em termos de desenvolvimento humano são de 2008, onde o Brasil ocupa o 70º lugar com o IDH de 0.807, embora o nosso PIB em 2009 tenha ficado em pouco mais de 1, 7 trilhões de dólares, o que faz de nós a 11º economia mundial. Em termos de PIB, a Islândia é a 125º colocada. Seu IDH, entretanto, é o primeiro do mundo (0.968). Mesmo os Estados Unidos, que detém o posto de maior PIB mundial – 13,820 trilhões de dólares – ocupa tão somente o 15º lugar em termos de IDH (0.950).  No caso do Brasil, o IDH deixa claro que o nosso problema não é exatamente a falta de recursos econômicos, já que este não é, definitivamente, um país pobre. No entanto, as desigualdades e má distribuição de renda nos colocam em um patamar de desenvolvimento humano inferior ao Uruguai, Cuba e Líbia, 47º, 48º e 52º lugares no IDH mundial, respectivamente.<br />
Para Amartya Sen, é difícil pensar em algo tão abstrato como o bem estar e a felicidade dos seres humanos sem ligá-las a alguma forma de regulação econômica. Tudo isso mais a liberdade e a capacidade de viver como seres racionais e capazes de tomar decisões apropriadas, deriva da forma como uma sociedade se organiza. O pensamento que preconiza que os mercados não têm necessidade de controle e que as pessoas farão boas escolhas de forma automática foi desmentido pelas últimas crises econômicas mundiais e apontam para a necessidade de organizar a economia de forma a tornar possível um conjunto de escolhas que gerem um aumento da qualidade de vida dos povos. Existem diferenças qualitativas entre, por exemplo, combater a fome em um país e aumentar o nível nutricional de seus habitantes. É o problema que a Europa se detém atualmente no sentido de tentar banir os transgênicos e os alimentos produzidos em grande escala, freqüentemente carregados de pesticidas, hormônios e gorduras trans.<br />
O campo de interesse de Amartya Sen pode também ser definido como uma antítese de fórmulas clássicas de entendimento social baseadas em um método definido, tal como o marxismo ou mesmo a psicanálise, cujas ferramentas são freqüentemente utilizados para além de seus campos originais de atuação. Sen inverte a lógica de “um método, muitas aplicações” para desenvolver uma pluralidade metodológica no intuito de formar um entendimento amplo sobre a desigualdade e a pobreza. Para Sen, não é possível falar de desenvolvimento sem antes tratar da liberdade do ser humano em seus aspectos primordiais, devolvendo às pessoas a sua condição de agentes. Para a economista Celia Kerstenetzky, Amartya Sen “é um leitor atento da tradição liberal clássica, tanto da economia política quanto da filosofia política, sendo especialmente sensível às peculiares formas de destituição e exclusão, e às profundas desigualdades que comprimem, quando não anulam, as liberdades efetivas em um mundo onde enormes progressos materiais foram alcançados”.<br />
Promover mudanças para além de especulações teóricas estéreis é o que Sérgio Buarque de Hollanda defende em Raízes do Brasil, ao falar do intelectual que deveria não apenas usar o seu saber como “ornamento e prenda”, mas como “especulação e ação”, no intuito de promover reais melhorias no ambiente social. A título de ilustração dessa lógica, cabe mencionar outro economista na linha de Sen, Muhammad Yunus, de Bangladesh, igualmente vencedor do Prêmio Nobel. Yunus foi o criador do conceito do microcrédito e ganhou o Nobel da Paz em 2006 porque a comissão encarregada do prêmio entendeu que não é possível haver paz sem desenvolvimento e não há desenvolvimento se persistirem problemas básicos como pobreza, fome e exclusão. Em todo o mundo, o microcrédito conseguiu tirar dezenas de milhares de pessas da pobreza.<br />
Um Brasil cada vez mais rico em termos de PIB não significa, necessariamente, um Brasil com maiores indices de desenvolvimento humano, como revelou Amartya Sen. Exemplo disso pode ser a imagem de condomínios de luxo vizinhos a favelas, como o Cidade Jardim, anexo ao shopping com o mesmo nome, em São Paulo, que possui imóveis que valem até 16 milhões de reais em um dos maiores empreendimentos desse porte na América Latina. A poucos metros dali fica a favela Jardim Panorama, com cerca de 400 casebres amontoados em uma área com deficiências crônicas de infra-estrutura. Entre esses dois jardins, tão dicotômicos entre si, não é difícil perceber as antíteses gritantes entre PIB e IDH no Brasil, bem como o custo humano e social da perpetuação dessa diferença.</p>
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		<title>Em busca de uma lógica Kadhafiana</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Nov 2011 20:51:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conexões Invisíveis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Relações Internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Primavera Árabe]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Silvia Ferabolli</p>
<p>Boletim Mundorama, 04 de novembro de 2011</p>
<p><a href="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/11/muammar-kadafi-1969.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-410" title="muammar-kadafi-1969" src="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/11/muammar-kadafi-1969.jpg?w=193&#038;h=154" alt="" width="193" height="154" /></a>Considera-se um “sofisma” o emprego de argumentos falsos com aparência de verdadeiros. Um erro de pensamento, já que chega-se a uma conclusão válida baseada em premissas falsas. Entre os complexos mecanismos de construção de um sofisma pode-se destacar o “sofisma de implicação”, segundo o qual a autoridade de determinada fonte implica na veracidade de um enunciado. Também conhecido como “transferência de credibilidade”, tais sofismas são amplamente utilizados por veículos consagrados da mídia, especialistas e políticos que, a despeito de sua real credibilidade e competência, quase sempre enveredam pelo caminho da argumentação falaciosa – produzindo aquilo que Noam Chomsky iria chamar de <em>manufacture of consent. </em>Desde o início da “guerra ao terror”, tornou-se um habito trabalhar com conjuntos de sofismas que visam legitimar ações cada vez menos justificáveis em termos éticos e políticos. O problema das “armas de destruição em massa” nas mãos de um “tirano sanguinário” que representava uma “ameaça a paz mundial” foi a justificativa usada pelos norte-americanos para invadirem o Iraque e abortar o projeto em curso da construção do Estado-nação iraquiano. A remoção de Mouammar Kadhafi do poder na Libia, por outro lado, sustentou-se na justificativa de que essa era mais uma das conquistas da primavera árabe.<span id="more-409"></span></p>
<p>Contudo, o processo de derrubada do regime de Kadhafi custou a morte de centenas de pessoas, pois os tímidos levantes iniciais vistos por todo o país foram se radicalizando na medida em que eram influenciados pelo apoio da OTAN. O assassinato brutal de Kadhafi pelo Conselho Nacional de Transição (CNT) – devidamente apoiado pela OTAN – faz pensar que a inocência original de uma primavera libertária, criativa e laica, tenha encontrado o seu fim na Libia. A morte de Mohamed Bouazizi desencadeou um ciclo revolucionário que, pensava-se, colocaria um fim tanto nos regimes decrépitos da região quanto nas diversas formas de ingerência externa que o mundo árabe enfrenta desde o século XIX. A morte de Kadhafi parece ter posto um fim em tais utopias necessárias, inaugurando um novo capítulo de incertezas em relação à estabilidade política da região. O ódio a Kadhafi era uma das poucas coisas em comum que unia grupos rebeldes instalados sob o guarda-chuva do CNT e poucas ilusões existem de que haverá uma legitimação democrática dos nomes que no momento representam o poder no país. Tal poder busca, com a leniência internacional, descartar a história do homem cuja trajetória política se confunde com a do país que governou por mais de quarenta anos.</p>
<p>Kadhafi ascendeu ao poder na Libia com o golpe militar que depôs o rei Idris, em 1969. Nascido em uma tenda beduína, membro do clã semi-nômade al-Gadafa da costa central da Libia,   Kadhafi tinha 14 anos quando Nasser nacionalizou o canal de Suez e, desde então, o pan-arabismo nasserista o acompanhou por muito tempo, fazendo-o acreditar nos ideais da <em>nahda </em>(renascimento) e da <em>wahda</em> (unidade) árabes. Nasser, enquanto um ídolo trágico, condenaria o jovem coronel a permanecer em sua sombra. Após a morte do presidente egípcio, em 1970, Kadhafi tentou se autoproclamar o novo líder pan-Árabe. Contudo, nem a Libia tinha os recursos de poder bruto de que dispunha o Egito na época e muito menos era Kadhafi um líder carismático do porte de Gamal Abdel Al-Nasser. Tendo suas ambições pan-árabes frustradas, Kadhafi focou suas energias em assuntos domésticos. Ainda nos anos 1970, assumiu o controle sobre a indústria petrolífera do país e passou a empregar parte significativa da renda do petróleo na melhoria do padrão da vida do povo líbio, um dos mais pobres do mundo na época.</p>
<p>De posse de seu “livro verde”, uma confusa compilação de seus pensamentos, mesclados com um socialismo utópico, Kadhafi fez da Líbia o laboratório ideal de suas reflexões político-existenciais. Desacreditando em partidos políticos, ele impôs, a partir de 1977, a ideia de um governo sem governo, comandado por um congresso geral composto por centenas de congressos locais: uma forma de governo baseada na democracia direta, com base em conselhos locais e comunas, também chamadas de Congressos Populares de Base. Tais instâncias dispensariam os intermediários na relação entre o povo e o Estado, oferecendo uma alternativa aos sistemas comunista e capitalista da época. De fato, o <em>libyan way </em>não passava de uma forma elegante de impor uma ditadura capitaneada por Kadhafi e um círculo restrito de homens de confiança em torno do líder.</p>
<p>Mantendo-se alinhado à filosofia que guiava suas ações em termos de política externa – uma mistura de pan-arabismo, anti-imperialismo e radicalismo islâmico – Kadhafi passou a alardear sua intenção de armar e treinar revolucionários para derrubar os governos da Tunísia, Egito e Argélia – se a unidade árabe não pudesse ser conseguida por meios pacíficos, então a utopia seria realizada pela força. O Egito, governado pelo moderado Anwar Sadat, foi aos poucos se tornando inimigo mortal da Líbia, culminando em uma curta guerra de dois meses entre os dois países e cuja intervenção de Yasser Arafat foi decisiva para o fim das hostilidades entre os irmãos árabes. Nessa época, o sangue de Kadhafi fervia pela revolução e ele se tornou um grande patrocinador de grupos políticos, com a recém-criada OLP, e também se utilizava dos serviços de terroristas famosos da época tal como Carlos o Chacal e Abu Nidal – esse último, membro de uma facção radical palestina, iria em 27 de dezembro de 1985 metralhar centenas de passageiros nos aeroportos de Roma e Viena. Dezenove pessoas foram mortas, cinco delas norte-americanas.</p>
<p>Logicamente, o comportamento político de Kadhafi fez dele um inimigo natural dos Estados Unidos. Em 1981, a Sexta Frota americana abateu dois caças líbios sobre o Golfo de Sirte, o primeiro de uma série de confrontos entre os Estados Unidos e os Estados árabes (desunidos) e que culminaria com a ocupação propriamente dita do Iraque em 2003. Em 1986, o presidente Ronald Reagan mandou bombardear alvos em Trípoli e Benghazi, objetivando claramente o assassinato daquele a quem batizou de “o cachorro louco do Oriente Médio”. Em 1988, entretanto, Kadhafi decidiu emular o presidente soviético Mikail Gorbachev iniciando um perestroika pessoal que o conduziria ao terceiro e último momento de sua trajetória. Kadhafi se deu conta de que os anos em que havia confrontado diretamente os Estados Unidos estavam cobrando um preço bastante elevado. Igualmente, o socialismo pueril que havia tentado implementar, baseado em seu “livro verde” levou a Líbia a tamanha escassez de produtos básicos que até sabonetes e pilhas tinham que ser obtidos no mercado negro.  Entretanto, nesse mesmo ano Kadhafi foi acusado de ordenar o atentado contra um jumbo da PanAm que explodiu sobre a localidade escocesa de Lockerbie, matando mais de duas centenas de passageiros, a maioria norte-americanos. Tal evento colocou em xeque a nova estratégia do coronel cuja imagem de patrocinador do terrorismo internacional se fortaleceu com tal episódio. Pressionado pela Grã-Bretanha e pelos Estados Unidos, os quais exigiam que Kadhafi entregasse para julgamento os dois principais suspeitos pelo atentado contra a PanAm, Abdelbaset al-Megrahi e Al-Amin Khalifa Fahima, membros do serviço de inteligência líbio, Kadafi se viu emparedado politicamente, já que entregar os suspeitos seria uma traição à Líbia e àqueles que os tinham como heróis nacionais. Por outro lado, o não cumprimento dessas exigências aumentaria o embargo imposto pela ONU, prejudicando os seus esforços para levantar a economia Líbia que estava em uma difícil situação.  Além disso, havia uma grande insatisfação popular que motivou uma série de rebeliões pelo país, bem como uma tentativa de assassinato, em 1993, da qual Kadhafi escapou por muito pouco. Seria somente em 1999, após longas discussões sobre termos e condições, que Kadhafi entregaria os dois suspeitos para serem julgados na Holanda e, posteriormente, indenizaria as famílias das vitimas. O cumprimento de tais demandas (entrega dos suspeitos para julgamento internacional e pagamento de bilhões de dólares em indenizações) garantiu o levantamento de praticamente todas as sanções econômicas que a Libia enfrentava. Firme em sua marcha em direção ao estabelecimento e solidificação de boas relações com o ocidente, Kadhafi abriu seus poços de petróleo para a exploração de empresas ocidentais em 2006. Comenta-se que, no ano seguinte, Kadhafi financiaria em grande parte a campanha de Nicolas Sarkozy para presidente, fato negado veementemente pelo atual presidente francês.</p>
<p>Na verdade, na primeira década do terceiro milênio, principalmente após o surgimento de novos e assustadores vilões tais como Osama Bin Laden, Kadhafi parecia um velho bicho papão que já não assustava mais ninguém. Ao contrário, suas roupas de um colorido berrante o faziam cada vez mais uma figura folclórica como aquele parente excêntrico que rouba a atenção nos eventos de família, mas que todos julgam inofensivo e até simpático. Durante esse período, ele desfrutou de uma inédita aceitação entre os principais líderes mundiais, tais como Barack Obama, Sarkozy e Berlusconi. Em um de seus últimos e grandiosos momentos, em 2009, Kadhafi visitou Roma e em seguida o premiê italiano Silvio Berlusconi também foi a Trípoli, em visita oficial. O governo líbio, que já era acionista da montadora italiana Fiat e do banco Unicredit, assinou uma série de acordos comerciais com a Itália. Os dois líderes também declararam o fim das mágoas relativas à ocupação colonial da Itália na Líbia (1911-1943).</p>
<p>Entretanto, a posição de Kadhafi nunca esteve tão tranquila quanto o aperto de mãos e os sorrisos franceses, americanos e italianos poderia lhe fazer supor. Os bons ventos duraram até o início da primavera árabe quando as revoltas que varreram parte do mundo árabe também chegaram á Libia. Os tímidos protestos iniciais que pareciam a Kadhafi fácil de conter, logo viraram uma guerra civil, especialmente após aviões franceses começarem a bombardear o território líbio. Imediatamente, os mesmos líderes que há pouco apertavam a mão de Kadhafi, começaram a apoiar os rebeldes contra o regime “desumano e sanguinário” do “ditador”. Não demorou muito para que a OTAN entrasse no jogo e o resultado final todos sabem qual foi: mais um governante árabe exposto ao ridículo e ao escárnio em capas de jornais, revistas e imagens televisivas repetidas <em>ad nauseam </em>e que nada mais fazem do que aumentar a sensação de vulnerabilidade dos povos da região.  Infelizmente, a autonomia na região irá depender da manipulação de agentes externos que continuarão a fabricar bandidos e mocinhos de acordo com as suas conveniências. É justo lembrar que na Arábia Saudita também eclodiram revoltas, contudo, tais eventos misteriosamente sumiram dos noticiários internacionais e apenas um bom entendimento do conceito de poder associado à ideologia hegemônica de Gramsci pode explicar o porquê da lógica de apoiar revoltas populares em um país e não no outro – de derrubar alguns ditadores e manter outros de pé.</p>
<p>Na verdade, Kadhafi é hoje retratado no discurso de líderes políticos ocidentais e na imprensa mundial como um ditador sanguinário que durante as décadas de seu governo nada mais fez do que imaginar maldades e atrocidades contra seu povo. Fazendo uso da proposta de Jutta Weldes de buscar relações entre a cultura popular, a ficção científica e a politica mundial, pode-se lembrar outro personagem político que recebeu a mesma alcunha alguns séculos atrás: Vlad III, Príncipe da Valáquia (1431-1476) ou, simplesmente, <em>Drácula. </em>O catálogo de horrores atribuídos a Drácula, e que inspiraram o clássico de Bram Stoker, não fez dele um político muito pior do que os de seu tempo, pois <em>a priori</em> ele estava governando de acordo com os padrões de sua época, a Renascença, sempre marcada por extraordinária desumanidade. Como bem lembram McNally &amp; Florescu em <em>In Search of Dracula: The History of Dracula and Vampires</em> (1995): “A era de Drácula foi a do rei aranha Luís XI; Ludovico Sforza o Mouro; o papa Bórgia, Alexandre VI; seu filho César; e Sigismundo Malatesta”. Todos governantes brutais que nada deixavam a desejar no quesito crueldade. A era de Kadhafi foi a de George W. Bush, Pol Pot  e Slobodan Milosevic.  Uma era de extremos marcada por genocídios, violações de direitos humanos, ocupação e destruição de países. Por fim, é preciso ressaltar que no folclore romeno, Drácula não é definido como um governante louco e tirano. Na verdade, os camponeses tinham orgulho dos feitos militares de seu líder e muitos, ainda hoje, estufam o peito ao dizerem-se descendentes de soldados que lutaram no exército de Drácula. Sabe-se que, na Libia de hoje, muitos ainda choram a morte de Kadhafi e temem pelo futuro que os espera sem a outrora onipresente figura do seu “líder da revolução”.</p>
<p>O Coronel Kadhafi foi, sem dúvida, um ator político controverso, amado e odiado por muitos. Sua morte se constituiu em uma traição do ocidente àquele que mais se empenhou em agradá-lo nos últimos anos, mostrando que as motivações internacionais são sempre obscuras e muito mais complexas do que o discurso oficial deixa transparecer. Existem interesses políticos e econômicos na Líbia que justificaram esse imenso esforço de guerra. Resta saber como será a relação entre o CNT e o povo líbio daqui por diante. Contudo, um governo que inicia com um parricídio festejado e legitimado pelas instâncias que o deveriam condenar, pouca coisa pode oferecer de bom. Espero, sinceramente, estar enganada.</p>
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		<title>As prévias do Partido Socialista na França anunciam a campanha eleitoral de 2012</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Oct 2011 00:16:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conexões Invisíveis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Política Francesa]]></category>

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		<description><![CDATA[Cláudio César Dutra de Souza Boletim Mundorama,  05 de outubro de 2011 As eleições para o senado francês, no dia 25 de setembro, foram um forte indicativo da disposição de voto do eleitorado francês para a campanha presidencial de 2012. Ao conquistarem 177, de um total de 348 cadeiras, do Palácio de Luxemburgo, aliado ao [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conexoesinvisiveis.com&amp;blog=9050773&amp;post=398&amp;subd=claudioesilvia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
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<p>Boletim Mundorama,  05 de outubro de 2011</p>
<p>As eleições para o senado francês, no dia 25 de setembro, foram um forte indicativo da disposição de voto do eleitorado francês para a campanha presidencial de 2012. Ao conquistarem 177, de um total de 348 cadeiras, do Palácio de Luxemburgo, aliado ao favoritismo que se mantém intacto nas últimas pesquisas eleitorais, os socialistas já vivem a certeza de que Nicolas Sarkozy irá para casa mais cedo no próximo ano.</p>
<p>O “presidente das reformas”, o “homem que prometeu sacudir a França”, entre outras promessas, se encontra isolado dentro de seu próprio partido e enfraquecido perante a opinião pública. Todas essas convergências fazem com que as prévias do Partido Socialista (PS), que irão ocorrer em dois turnos nos dias 09 e 16 de outubro, sejam um evento político de grande importância e que irá revelar, muito provavelmente, o nome do próximo ocupante do <em>Palais de l&#8217;Elysée</em>.<span id="more-398"></span></p>
<p>Há poucos meses, era dado como certo que esse nome seria o do então diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn (DSK). No entanto, as pretensões de DSK foram frustradas em maio último, após esse ter sido acusado de estuprar uma camareira do Hotel Sofitel, em Nova Iorque. Embora tais acusações carecessem de fundamentos e DSK tenha sido inocentado semanas depois, isso lhe custou o cargo no FMI, bem como o sonho de disputar as prévias do Partido Socialista, das quais era o grande favorito. A polêmica envolvendo DSK, na verdade, pouco comprometeu a sua imagem perante a opinião pública francesa, como mostraram tanto as pesquisas nacionais como as internas do PS. Isso porque na França, ao contrário dos Estados Unidos e alguns outros países europeus mais conservadores, questões sexuais e de gênero não costumam ser levadas em conta na esfera política – para desespero das feministas francesas (e suas colegas americanas), as quais acusam o Partido Socialista e os franceses em geral de serem indulgentes em relação ao comportamento de DSK.</p>
<p>É certo que a derrocada de DSK foi o dispositivo que impulsionou as candidaturas de François Hollande e Martine Aubry, antes eclipsadas pelo carisma do homem que poderia estar desfrutando uma vitória anunciada caso o destino, possíveis conspirações e seus próprios erros, não o tivessem jogado para fora da disputa.  Atual presidente do PS e comprometida com um pacto de “não agressão” com DSK, Martine Aubry nem por isso deixa de aproveitar a situação para discretamente <em>play the gender card</em>. Embora evitando falar abertamente e emitir julgamentos, Aubry tem livre trânsito entre as feministas francesas que continuam condenando DSK, o qual é visto por elas como uma espécie de “predador sexual compulsivo”, o que é corroborado pelas acusações da jornalista Tristane Banon, segunda a qual DSK teria tentado violentá-la em 2003. De quebra, Banon também coloca François Hollande, na época presidente do PS, sob suspeita, acusando-o de ter colocado “panos quentes” sobre o caso a fim de manter as aparências do partido.</p>
<p>Prosseguindo na estrutura de folhetim das atuais prévias do Partido Socialista, François Hollande é também o ator principal de uma novela que envolve Ségolène Royal, sua ex-companheira de partido e de vida. Separados desde o final das eleições passadas, o casal, outrora símbolo da <em>gauche française</em>, foi afetado pelo caso extraconjugal de Hollande com a jornalista Valérie Trierweiler, com a qual o candidato oficializou sua relação em 2010. A mídia francesa não cansa de especular o quão longe Hollande e Royal podem chegar no que diz respeito a possíveis ataques pessoais antes do primeiro turno das prévias. Favorito absoluto até o presente momento, Hollande naturalmente evita qualquer confronto. Entretanto, Royal se manifestou de forma irônica, em declaração ao jornal Le Fígaro, na semana passada, quando questionou se os franceses poderiam citar um único objetivo que ele [François Hollande] alcançou em 30 anos de vida política. Hollande, do alto de seus 44% das intenções de voto, não respondeu e, provavelmente, não o fará já que Royal, que ocupa o terceiro lugar com 13% das intenções de voto, é considerada por ele como carta fora do baralho.</p>
<p>Hollande está certamente mais preocupado com a atual presidente do Partido Socialista, Martine Aubry que, com 27% das intenções de voto, é a única ameaça real que esse enfrenta nas prévias. Arnaud Montebourg, e seus 10%, persegue o terceiro lugar de Royal e mostra tendências de crescimento. Manuel Valls e o presidente do Partido Radical de Gauche (PRG), Jean Michel Bayet, não possuem chances reais de vitória e não serão considerados nesse artigo. <a title="" href="#_ftn1">[1]</a></p>
<p>Faltando poucos dias para o primeiro turno das prévias, François Hollande aumenta seu favoritismo frente à Martine Aubry, ampliando-o a cada debate televisivo, o que pode fazê-lo ganhar a vaga ainda no primeiro turno. Cabe lembrar que, em 2007, o desempenho midiático do candidato Sarkozy teve enorme importância perante os franceses, tendo em vista que esse se mostrou coeso e objetivo em face de uma Royal que mudava de opinião de acordo com as pesquisas. Embora Hollande esteja quase certo como o candidato eleito, Aubry se empenha em percorrer o país em busca de eleitores. Nesse ano, as prévias do PS estão abertas ao cidadão francês “comum”, e não só aos filiados. Com esse dado novo, a candidata busca diminuir sua desvantagem em relação à Hollande e para isso não hesita em denunciar, mesmo que de forma discreta, o “sexismo francês” em um discurso com discretas menções a sua condição de “mulher”, que poderia ser a primeira a governar a França. A candidata é forte entre as feministas francesas, que persistem em querer colocar relações de gênero em pauta nessas prévias. No entanto, em recente declaração a imprensa, Anne Sinclair, mulher de Dominique Strauss-Kahn, afirmou que não acredita nem por um segundo nas acusações feitas ao seu marido, apelando para a decência e à “contenção&#8221; por parte dos órgãos de comunicação. Sinclair representa uma opinião majoritária na França, partilhada entre mulheres e homens, a qual protege a privacidade a qualquer custo.</p>
<p>O irônico é que DSK é livre para se expressar como quiser e pode oferecer o seu apoio a quem ele desejar, mesmo que um “falso apoio” no intuito de prejudicar algum desafeto que, nesse caso, seria Martine Aubry. Igualmente, apenas para tornar mais complicado o assunto, o silêncio de DSK será, sem dúvida, explorado avidamente pela Union Pour um Mouvement Populaire (UMP) na tentativa de aditivar a combalida candidatura de Sarkozy. Podemos esperar muitos lances desesperados que irão ultrapassar aspectos éticos ordinários, tal como o livro que Tristane Banon irá lançar em meados de outubro contando detalhadamente o suposto abuso por parte de DSK. Não há dúvidas que essa história irá respingar em François Hollande.</p>
<p>A saída de Sarkozy dos holofotes da política francesa não se fará sem certa melancolia. Bravatas a parte, esperava-se, em 2007, que o projeto politico de reformas de Estado, que era o carro chefe do candidato da UMP, avançasse o mínimo que fosse a fim de resolver fortes desigualdades dentro da sociedade francesa. O progressivo enfraquecimento e certa folclorização de seu mandato impedem discussões mais aprofundadas a respeito da engessada estrutura de Estado na França, que ainda necessita de reformas, seja lá qual for o próximo presidente eleito.</p>
<p>No meio de todo esse delicado jogo de poderes onde qualquer movimento em falso pode ser fatal, as propostas dos candidatos até o momento seguem uma cartilha bem conhecida que vai da geração de novos empregos à redução do déficit fiscal, passando pela revalorização do ensino público, entre outras declarações <em>pro forma</em> que serão melhor examinadas nos debates específicos da campanha eleitoral.</p>
<p>Por fim, em se falando de eleições, principalmente de eleições na França, cabe a clássica frase do jogador Didi de que “treino é treino, jogo é jogo”. A tendência do momento aponta François Hollande como o vencedor das prévias do PS e também como o provável próximo presidente da França. Entretanto, há ainda muito tempo pela frente e reviravoltas podem acontecer em uma campanha que já iniciou de forma atípica.  Os bons ventos que sustentam a campanha do PS podem mudar no momento em que acabarem as prévias e iniciar a campanha propriamente dita. Nicolas Sarkozy é um excelente debatedor e convém também lembrar que Marine Le Pen está em processo acelerado de campanha, afiando a guilhotina para 2012.</p>
<div>
<hr align="left" size="1" width="33%" />
<div>
<p><a title="" href="#_ftnref1">[1]</a> Os dados são referentes a última pesquisa IPSOS-Le Monde, publicada na edição do jornal do 29/09/2011.</p>
</div>
</div>
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		<title>Um Mundo Pós-AIDS?</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Oct 2011 21:26:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conexões Invisíveis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estudos Culturais]]></category>
		<category><![CDATA[AIDS]]></category>

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		<description><![CDATA[Cláudio César Dutra de Souza Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 3 &#8211; 01 de outubro de 2011. Em junho de 2011 chegamos ao trigésimo aniversário de uma doença que modificou definitivamente nossos valores e percepções sobre relacionamentos e a sexualidade.  A Acquired Imune Deficiency Syndrome (AIDS) nasce, oficialmente, em 05 de junho de 1981, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conexoesinvisiveis.com&amp;blog=9050773&amp;post=386&amp;subd=claudioesilvia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cláudio César Dutra de Souza</p>
<p>Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 3 &#8211; 01 de outubro de 2011.</p>
<p><a href="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/10/combate_aids3.gif"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-394" title="combate_aids" src="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/10/combate_aids3.gif?w=163&#038;h=168" alt="" width="163" height="168" /></a>Em junho de 2011 chegamos ao trigésimo aniversário de uma doença que modificou definitivamente nossos valores e percepções sobre relacionamentos e a sexualidade.  A <em>Acquired Imune Deficiency Syndrome</em> (AIDS) nasce, oficialmente, em 05 de junho de 1981, nos Estados Unidos, quando o Centro Americano para a Prevenção e Controle de Doenças registrou um estranho surto de pneumonia em Los Angeles. Nesse mesmo período, várias ocorrências de um raro tipo de câncer chamado Sarcoma de Kaposi aconteceram em São Francisco, levando os estudiosos a concluírem que algo de muito estranho e sério estava ocorrendo. A Sigla AIDS só foi oficializada em 1982, sendo que em seu início a doença era conhecida como <em>Gay-Related Immune Deficiency</em> (GRID), já que o primeiro grupo a ser afetado pela nova doença eram os homossexuais masculinos norte-americanos. Naquela época, de acordo com o filósofo e ativista francês Daniel Denfert, existia uma sigla pouco conhecida através da qual os pacientes com AIDS eram referidos nos corredores dos hospitais: WOG – <em>Wrath of God</em>, ou seja, “A Ira de Deus”<em>.</em> Nos idos de 1980, um paciente soropositivo carregava, de fato, uma sentença de morte em curto prazo.<span id="more-386"></span></p>
<p><em>          </em>Não obstante a gravidade natural da doença, ainda sem tratamento naquela época, o doente de AIDS sofria em dobro pelo preconceito contra si.  A crença inicial de que a AIDS afetava tão somente “grupos de risco” tais como homossexuais, viciados em drogas injetáveis e “promíscuos em geral”, deixava implícito, para alguns, que de certa forma aquelas pessoas, por seu comportamento desviante, haviam feito por merecer o mal de que padeciam. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, Ronald Reagan e Margareth Thatcher lideravam uma guinada conservadora de resgate dos valores tradicionais após décadas de fortes reivindicações sociais e libertárias nos anos 1960 e 1970. Mais do que nunca, o modelo tradicional familiar era vendido como a correta proteção contra os malefícios da “peste gay”. Tais injunções foram corroboradas pelo Papa João Paulo II em início de pontificado, quando este afirmou que a castidade e a monogamia deveriam ser observadas como forma aceitável de evitar a doença.</p>
<p>Susan Sontag sintetizou em seu livro, <em>A AIDS e suas Metáforas</em> (1989), os principais estigmas e preconceitos que os doentes sofriam em meados da década de 1980. Para Sontag, a AIDS, além de punir os “culpados”, provocava igualmente uma situação de perigo aos “inocentes” que poderiam ser expostos a um risco imerecido.  O desconhecimento e a ignorância foram responsáveis por diversas e tristes cenas de exclusão de soropositivos nas escolas, no trabalho e no ambiente social como um todo. Vivia-se o que Foucault iria conceituar como um “erotismo discursivo generalizado”, onde o sexo das crianças e dos adolescentes foi privilegiado como um importante foco de observação e sobre o qual se dispunham uma série de dispositivos institucionais e estratégias discursivas como forma informação, prevenção e vigilância. Entretanto, tal situação logo veio a se modificar. Nas décadas seguintes, estudos aprofundados provaram o erro de se pensar em “grupos de risco” quando, na verdade, havia “comportamentos de risco”, tornando todos, incluindo os heterossexuais, suscetíveis á contaminação pelo HIV. Desde o surgimento da AIDS, estima-se que 25 milhões de pessoas morreram e que ainda temos 34 milhões de infectados no mundo todo.</p>
<p>No entanto, a certeza de “morrer de AIDS” foi gradativamente substituída pela realidade de “viver com AIDS”.  O esforço conjunto de cientistas, movimentos sociais, filantropos e dos governos de diversos países foram responsáveis por enormes avanços para deter a disseminação do HIV no mundo, frustrando as funestas previsões iniciais sobre uma pandemia apocalíptica de proporções incontroláveis. Grupos de medicamentos, os conhecidos coquetéis, possibilitaram ao portador do vírus HIV uma vida praticamente normal por tempo indeterminado. Aliado às campanhas de prevenção, o índice de contaminação pela AIDS é menor do que 0,5% no mundo desenvolvido, embora ultrapasse os 4% na África subsaariana (fonte: UNAIDS, 2009). A boa notícia é que o Brasil possui os mesmos índices dos países desenvolvidos graças ao empenho social e governamental em focar desde muito cedo no problema. Embora polêmicas, as quebras de patentes para os principais medicamentos que compõem o coquetel contra a AIDS em 2001, 2007 e 2011, possibilitaram acesso às classes mais vulneráveis a um tratamento gratuito via SUS. Cabe lembrar que, embora sob controle, a AIDA é ainda uma doença grave e sem perspectivas de cura.</p>
<p>Exatamente por isso, a vulnerabilidade dos mais jovens fez com que a sua sexualidade fosse encarada de forma mais direta e franca, já que não se constitui em uma questão se o adolescente está fazendo sexo, ou não, mas sim como ele está se protegendo. Nos relacionamentos amorosos, o conceito de lealdade começou a substituir gradativamente o de fidelidade. Lealdade pressupõe o uso do preservativo em qualquer aventura extraconjugal, na suposição tácita de que elas acontecerão de qualquer forma. Ironicamente, o “castigo divino” que propiciaria o retorno a valores mais conservadores acabou por sepultá-los de vez em prol de uma nova racionalidade positiva a qual é sempre prudente evitar um juízo de valor precoce. No momento, a certeza de que temos é que um mundo pós-AIDS está cada vez mais próximo.</p>
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		<title>England Riots &#8211; uma anarquia sem sentido?</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Aug 2011 22:05:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conexões Invisíveis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estudos Culturais]]></category>
		<category><![CDATA[Distúrbios na Inglaterra]]></category>

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		<description><![CDATA[Cláudio César Dutra de Souza Inédito A situação de caos que tomou conta da Inglaterra, desde sábado passado, teve o seu início com a morte de Mark Duggan, ocorrida no distrito de Tottenham, norte de Londres. O que deveria se caracterizar como um protesto contra a violência policial acabou se transformando em uma onda de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conexoesinvisiveis.com&amp;blog=9050773&amp;post=378&amp;subd=claudioesilvia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:left;" align="center">Cláudio César Dutra de Souza</p>
<p style="text-align:left;" align="center">Inédito</p>
<p><a href="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/08/707557-london-riots1.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-380" title="707557-london-riots" src="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/08/707557-london-riots1.jpg?w=201&#038;h=162" alt="" width="201" height="162" /></a>A situação de caos que tomou conta da Inglaterra, desde sábado passado, teve o seu início com a morte de Mark Duggan, ocorrida no distrito de Tottenham, norte de Londres. O que deveria se caracterizar como um protesto contra a violência policial acabou se transformando em uma onda de violência sem precedentes desde as grandes manifestações da era Thatcher. Distúrbios ocorreram em diversos bairros londrinos, desde os mais populares até o elegante bairro de Nothing Hill. Em poucos dias a situação se alastrou para outras cidades da Inglaterra, tais como Croydon, Liverpool e Birmingham. As cenas exaustivamente mostradas pela BBC mostravam um cenário semelhante de vandalismo e destruição ante a uma população amedrontada e policiais perplexos. Todos ainda se perguntam, afinal, o que querem esses jovens? Teriam eles uma causa ou seriam apenas bandidos comuns ou oportunistas?<span id="more-378"></span></p>
<p>Um conjunto de situações complexas deve ser levado em conta antes de se tentar soluções simplistas nesse caso. Para um brasileiro médio, pode parecer estranha a estratégia de atuação da polícia britânica. Imagens da BBC mostram os manifestantes quebrando vitrines e roubando objetos na frente de centenas de policiais que nada fazem para impedir os saques. Poderíamos esperar ações bem mais incisivas de qualquer polícia sul-americana em face de problemas semelhantes. Nos atuais conflitos na Síria, as forças armadas fiéis ao presidente Assad não hesitam em abrir fogo contra a população que exige a sua renúncia. Entretanto, na “ultra-civilizada” Inglaterra, ações de violência policial desse porte são inaceitáveis até para os mais conservadores. A extrema violência das ações confunde polícia, políticos e pensadores, enquanto a população busca respostas.</p>
<p>Manifestações sociais fortes, por vezes violentas, são comuns em um país em que as massas se levantam sem dificuldades para fazer valer seus direitos. Nos últimos anos, a Inglaterra teve uma série de protestos contra a tentativa de cortes em benefícios sociais e o aumento das mensalidades do ensino superior, entre outras.  Em 1990, o Reino Unido esteve a beira do caos nas manifestações conhecidas como <em>Pull tax riots</em>, quanto milhares de pessoas tomaram as ruas em fortes confrontos com a polícia para protestar conta os elevados impostos que a então Primeira Ministra Margareth Thatcher impunha aos britânicos. Analistas políticos hoje concordam que tais eventos foram decisivos para a renúncia de Thatcher em novembro daquele mesmo ano quando John Major assumiu o governo e atendeu as exigências da população. Naquela época, foi decisiva a participação de agentes políticos e sindicais, tanto quanto do cidadão comum.</p>
<p>Nos distúrbios que a Inglaterra assiste nos últimos dias, ao contrário, não há reivindicações e não há porta-vozes denunciando o que quer que seja. Se os primeiros distúrbios poderiam ser entendidos como uma resposta ao assassinato de um jovem negro do subúrbio, o que se seguiu não passou de uma onda de assaltos, verdadeiros “arrastões” que dizimaram estoques de produtos eletrônicos em lojas do ramo, além de roupas, cigarros e bebidas em grandes e pequenos estabelecimentos locais. A esquerda britânica, nos primeiros dias, até tentou trabalhar com a ideia de tensões raciais, opressão da juventude, desemprego, etc. Contudo, infelizmente, faltaram “palavras de ordem” que legitimassem as ações dentro de um espectro minimamente militante em qualquer sentido. “Também foram calados aqueles que de certa forma se animaram com a hipótese remota de um “levante do proletariado” contra a “burguesia conservadora.”.</p>
<p>Em termos rigorosamente Marxistas, o espetáculo dos últimos dias poderia ser entendido como a manifestação do Lumpesinato. Na terminologia Marxista, o lúmpem é o estrato social que carece de consciência política. São tão somente miseráveis que se dedicam ao roubo e a atividades marginais diversas, desvinculados da produção social e que acabam por atrapalhar a verdadeira luta do trabalhador. A esquerda britânica, rapidamente, corrigiu alguns entendimentos precipitados que emergiram no início dos acontecimentos e agora evita a glamurização insensata do agir criminoso. Para ganhar o status de “protesters”, tais jovens poderiam se dedicar a denunciar a sociedade de consumo que transforma alguns objetos em fetiches de consumo, tais como televisões de plasma e smart phones roubadas aos montes. Pode-se compreender que populações desprovidas saqueiem supermercados, porém o que aconteceu durante o arrastão do Kingsland Shopping Centre no distrito de Hackney foi nada mais do que a satisfação de um desejo de consumo imediato e mediado pela apropriação indébita. Nenhuma ideologia envolvida, nenhuma crítica ao “sistema” foi feita – principalmente ao fato de que por trás de muito dos produtos ali roubados está o sofrimento de um trabalhador chinês semiescravo.</p>
<p>Não menos carentes de uma análise mais encorpada, os conservadores repetem a mesma ladainha a respeito da necessidade de “endurecer” contra os “baderneiros”. Muitos esticam as suas conclusões no sentido de retomar o discurso sobre a “falência do multiculturalismo” e a necessidade do resgate da “identidade britânica”. Parece que o antagonismo direita x esquerda já não é suficiente para dar conta de algo diferente e que não possui organização, metodologia ou mesmo ideologia. A Inglaterra é especialista em lidar com todo o tipo de distúrbios, contanto que haja uma motivação que os sustente. A criminalidade lúmpem é uma novidade no Reino Unido – e uma triste realidade no Brasil. Em nosso país, há quem veja essas ocorrências como uma espécie de aviso para o cuidado com a segurança para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos que ocorrerão nos próximos anos. Infelizmente, a contenção rápida e brutal de manifestações populares mais violentas é uma caracterísitca do Brasil. Não temos com o que nos preocupar.</p>
<p style="text-align:left;" align="center">
<br />Filed under: <a href='http://conexoesinvisiveis.com/category/estudos-culturais/'>Estudos Culturais</a> Tagged: <a href='http://conexoesinvisiveis.com/tag/disturbios-na-inglaterra/'>Distúrbios na Inglaterra</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/claudioesilvia.wordpress.com/378/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/claudioesilvia.wordpress.com/378/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/claudioesilvia.wordpress.com/378/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/claudioesilvia.wordpress.com/378/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/claudioesilvia.wordpress.com/378/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/claudioesilvia.wordpress.com/378/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/claudioesilvia.wordpress.com/378/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/claudioesilvia.wordpress.com/378/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/claudioesilvia.wordpress.com/378/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/claudioesilvia.wordpress.com/378/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/claudioesilvia.wordpress.com/378/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/claudioesilvia.wordpress.com/378/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/claudioesilvia.wordpress.com/378/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/claudioesilvia.wordpress.com/378/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conexoesinvisiveis.com&amp;blog=9050773&amp;post=378&amp;subd=claudioesilvia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Ana de Hollanda é uma estrutura</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Aug 2011 01:02:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conexões Invisíveis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estudos Culturais]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura Brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Política brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[Cláudio César Dutra de Souza Inédito A situação da ministra da cultura, Ana de Hollanda é uma eterna incógnita. Sua gestão, recém-iniciada, já sofre críticas da oposição, como seria de se esperar, mas principalmente da classe artística e de setores de seu próprio partido. Diversas vezes a presidente Dilma Rousseff foi obrigada a declarar publicamente [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conexoesinvisiveis.com&amp;blog=9050773&amp;post=373&amp;subd=claudioesilvia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cláudio César Dutra de Souza<a href="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/08/anan.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-374" title="anan" src="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/08/anan.jpg?w=160&#038;h=158" alt="" width="160" height="158" /></a></p>
<p>Inédito</p>
<p>A situação da ministra da cultura, Ana de Hollanda é uma eterna incógnita. Sua gestão, recém-iniciada, já sofre críticas da oposição, como seria de se esperar, mas principalmente da classe artística e de setores de seu próprio partido. Diversas vezes a presidente Dilma Rousseff foi obrigada a declarar publicamente o seu apoio a uma enfraquecida e confusa Ministra, incapaz de lidar com os espinhos e sutilezas do poder.  Filha de Sérgio Buarque de Hollanda, irmã de Chico e Miucha, tia de Bebel, a presença de Ana de Hollanda a frente do Ministério da Cultura parece ser uma jogada de conveniência do governo, um tributo a um grupo que, desde os anos 60 representa certa elite cultural brasileira cujos padrões de bom gosto retroalimentam as aspirações ufanistas/intelectuais do ouvinte médio. Ana de Hollanda, mais do que uma ministra inexpressiva, é uma estrutura.<span id="more-373"></span></p>
<p>Após os anos 60, o conceito de MPB (música popular brasileira) emergiu como um conceito que, dali por diante, iria pautar certo entendimento a respeito do que seria “cultura” no Brasil. Nesse período surgiram Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Rita Lee, enfim, o sagrado olimpo daquilo que se constituiria nas décadas seguintes como MPB. Em 1968, Ana de Hollanda participou do III Festival Internacional da Canção com o frevo “Dança das Rosas”. Ao contrário de seu irmão, a carreira artística de Ana foi errática. Ela gravou apenas quatro discos e participou de projetos artísticos sem grande repercussão comercial. Também foi Secretaria Municipal de Cultura de Osasco-SP (1986-88) e vice-diretora do museu da imagem e do som de 2007 a 2010 quando assumiu o Ministério da Cultura. Ana de Hollanda faz parte da aristocracia da MPB e não são poucas as vozes que se levantam cegamente em sua defesa. Uma dessas vozes é Caetano Veloso que recentemente declarou o seu apoio incondicional à ministra.</p>
<p>Recentemente, a irmã de Caetano, Maria Bethânia, sofreu críticas por ter conseguido a autorização do Ministério da Cultura para captar 1.3 milhões de reais para compor um blog na qual recitaria um poema por dia durante um ano. Com um minuto de duração, ela seria dirigida por Andrucha Waddington.  Nenhum argumento no universo justificaria tal soma a um empreendimento a qual Bethânia poderia fazer deitada na rede de sua casa com uma webcam se realmente pensasse que “O mundo precisa de poesia”. Porém, o mundo precisa de contatos e patrocínios mais do que tudo. Caetano, ao comentar o evento dispara que <em>&#8220;E essa história [de Bethânia] pode ser essa vontade de derrubar Ana porque acreditam demais na magia benigna da internet.(&#8230;)Há muita mitologia do novo mundo da internet, do admirável mundo novo. É uma espécie de bolha conceitual. Sou velho o suficiente pra dizer que é bobagem.&#8221;</em> Essa frase de Caetano foi reproduzida nos principais jornais do país e não quer dizer absolutamente nada. Apenas evidencia uma soberba e um sentimento persecutório de quem não admite críticas e tenta desviar o foco da questão com filosofias rasteiras que são recebidas como hóstias por seu fiel público.</p>
<p>A ironia maior é que o pai de Ana, Sérgio Buarque de Hollanda, é o autor de “Raízes do Brasil” uma obra prima sobre o caráter cordial do povo brasileiro. Nesse sentido, não custa recordar que “cordialidade” não é gentileza, mas sim, vem do latim “corda” (coração). Significa, entre outras coisas, que estabelecemos redes de contato baseadas em laços afetivos e subjetivos que seriam o oposto de uma possível meritocracia. O “homem cordial” coloca o afeto como algo superior á razão. Sérgio Buarque narra o espanto de um americano que narra que o Brasil é o único país que, antes de se fazer um negócio, é preciso se tornar amigo do cliente. Nada espantoso que o mais recente escândalo de Ana de Hollanda seja a captação de 1.9 milhões de reais de sua sobrinha, a cantora Bebel Gilberto, filha de João Gilberto e Miucha, irmã de Ana, para fazer uma série de shows pelo Brasil e gravar um DVD. Coincidência ou nepotismo? Aguardam-se ansiosamente as palavras de Caetano para a denúncia de mais uma conspiração em marcha com citações deleuzianas complexas, enquanto apadrinha a pré- fabricada Maria Gadú e sua MPB clichê.</p>
<p>Os privilégios de Bethânia e Bebel Gilberto perfazem uma ação cordial entre amigos. Ana de Hollanda é uma estrutura, tal como Gilberto Gil o era anteriormente. Parece que geração rebelde dos anos 60 agora se locupleta com as delícias do poder. O motivo pelo qual o PT cede espaço à rede cordial da MPB se explica no sentido de agradar formadores de opinião e seus discípulos que, mesmo sendo pouco numerosos, possuem grande poder de fogo. É a mesma estratégia que as grandes gravadoras utilizavam nos anos 70 quando mantinham os artistas da “MPB” em seus casts. Caetano, Chico e afins jamais formam grandes vendedores de discos, porém, a sua presença nas gravadoras era obrigatória a fim de trabalhar a parte institucional da empresa, Gretchen, Magal e Ovelha pagavam os custos de produção desses artistas e ainda geravam lucro. Isso não significa que se defenda o nivelamento da arte de acordo com o seu potencial de venda. No entanto, quando Caetano grava Odair José e Peninha, ou Bethania relê “é o amor” de Zezé de Camargo e Luciano, temos a dimensão do quanto é preciso o aval desses artistas para que se superem certas barreiras estéticas daquilo que significa “bom gosto”, e mais além, do próprio conceito de cultura.</p>
<p>Lobão em sua loucura genial fala nisso há tempos. Por que o Ministério da Cultura, desde a gestão anterior, se tornou um feudo de certos clãs? O que Ana de Hollanda tem a oferecer a um Brasil tão rico culturalmente e que talvez mereça ter acesso a outras manifestações que ultrapassem a tropicália bossa velha de artistas que, a despeito de seu imenso talento, podem andar sozinhos. Por outro lado, é chegada a hora da velha geração abandonar o antigo hábito do “beija-mão”, supondo que irá legitimar os jovens que iniciam na carreira artística. Ana de Hollanda, nesse caso, representa uma estrutura que talvez ela mesma desconheça. Espanta a sua ingenuidade que dá margens a tantas críticas, ou, a sua aristocrática arrogância perante as mesmas. Existe uma velha frase que diz “falta cultura para cuspir na estrutura”. Tal cultura é algo maior do que aquilo que se vê, ou, nesse caso, se impõe a partir de visões estereotipadas do “bom gosto” e de privilégios cordiais que fariam Sérgio Buarque corar no paraíso.</p>
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		<title>Reflexões Sobre a Primavera Árabe</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Jun 2011 20:33:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conexões Invisíveis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Relações Internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Primavera Árabe]]></category>

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		<description><![CDATA[Sílvia Ferabolli Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 2 – 28 de maio de 2011 Dezenas de eventos, centenas de artigos, milhares de comentários na internet. O que já se convencionou chamar de primavera árabe – ou o conjunto de manifestações que vem ocorrendo no mundo árabe desde que o tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conexoesinvisiveis.com&amp;blog=9050773&amp;post=365&amp;subd=claudioesilvia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sílvia Ferabolli</p>
<p>Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 2 – 28 de maio de 2011</p>
<p><a href="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/06/primavera.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-366" title="primavera" src="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/06/primavera.jpg?w=206&#038;h=158" alt="" width="206" height="158" /></a>Dezenas de eventos, centenas de artigos, milhares de comentários na internet. O que já se convencionou chamar de primavera árabe – ou o conjunto de manifestações que vem ocorrendo no mundo árabe desde que o tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo, gerando a onda protestos que derrubou os presidentes Ben Ali e Hosni Mubarak e que ameaça os regimes sírio, iemenita e barenita – ainda é um fenômeno de causas e consequências indefinidas. Contudo, algumas características marcantes desse “momento histórico árabe” já começam a ser percebidas por alguns estudiosos da área, tais como Charles Tripp, Sami Zubaida e Nadim Shehadi. Abaixo, uma síntese das ideias que esses autores vêm defendendo no que concerne ao recente “levante” árabe e que podem lançar luz sobre os caminhos que esse debate vai tomar nos próximos meses – ou mesmo nos próximos anos.<span id="more-365"></span></p>
<p>A principal característica identificada por Sami Zubaida, autor, dentre outros, de <em>Beyond Islam: a new understanding of the Middle East </em>(I.B. Tauris, 2011) é a ausência de slogans islâmicos na primavera árabe. É importante entender que o islamismo não é uma “coisa”, mas um “idioma” através do qual várias vertentes ideológicas se manifestam. Segundo Zubaida, o Islã conservador (muitas vezes aliado aos regimes) é o que restou depois de décadas de repressão e é por isso que os slogans islâmicos não estão presentes na maior parte dos protestos que varrem os países árabes. Existe um pragmatismo voraz nas expressões dos manifestantes, que clamam por empregos, serviços, democracia e melhores condições de vida – os slogans ideológicos vazios (<em>sic</em>) contra o imperialismo ocidental e israelense não estão presentes na maior parte das manifestações.</p>
<p>Para o autor de <em>A History of Iraq</em> (Cambridge University Press, 2007, 3rd ed.), Charles Tripp, reclamar física e simbolicamente o espaço público é uma das principais características da primavera árabe. Existe, segundo ele, uma tentativa estratégica e simbólica de dominar o espaço público, o que pode ser visto nas representações materiais (grafites, aglomerações, passeatas) que tem uma ressonância simbólica direta: a ideia de reocupar o lugar que deveria pertencer ao público. O que antes era um espaço disciplinador – praças com estátuas de Mubarak e Kadafi, ruas decoradas com pôsteres de Bashar al-Assad e de Ali Abdullah Saleh, controladas por policiais que vigiavam o fluxo dos transeuntes – transforma-se em espaço para mobilização popular. As humilhações do regime eram públicas (policiais esbofeteando civis era uma cena comum no Egito e ainda o é na Síria) – então agora o público humilha seus governantes perante o mundo. De vítimas, os manifestantes passam a mestres do espaço publico.  Tripp também percebe uma clara tentativa de redefinir o significado de “lealdade à nação”. Quem se levanta contra o regime está servindo a interesses de outros (ver <em>Rei do Bahrein culpa Irã por revolta xiita</em>, Estadão 22/03/2011; e <em>Kadafi acusa ocidentais de “complô colonialista”</em>, Zero Hora 09/03/2011). Atos de levante políticos são interpretados como atos de traição e líderes afirmam em seus pronunciamentos públicos que aqueles que defendem o regime são leais à nação – os insurgentes, traidores. De maneira inversa, manifestantes carregam faixas escritas “Assad traidor da nação síria”. Uma terceira característica desse momento árabe percebida por Tripp é a unidade performática: no auge dos protestos na praça Tahir, cristãos cuidavam muçulmanos enquanto esses rezavam e, por todo o Egito, muçulmanos protegiam igrejas cristãs. Contudo, alguns grupos entoavam a seguinte canção de protesto na Síria “Alawitas para o caixão e para Beirute os cristãos”, numa demonstração clara de que a performance da unidade pública contra a tirania de interesses privados pode rapidamente dar lugar a demonstrações explícitas de clivagens políticas, sociais e religiosas. Por fim, se é verdade que aqueles que fazem a revolução raramente são aqueles que assumem o poder, fica fácil entender porque para Tripp o maior desafio será institucionalizar a tomada do espaço público. Passado o entusiasmo inicial, como será institucionalizado esse novo poder público em países como o Egito e a Líbia?</p>
<p>Para Nadim Shehadi, ex-diretor do Centro de Estudos Libaneses da Universidade de Oxford e atual <em>expert</em> em Oriente Médio e Norte da África da Chatham House, a principal característica da primavera árabe é que ela nos obriga a repensar o que entendemos por estabilidade e ordem. Para um investidor internacional o Egito não parecia um porto de paz e estabilidade em novembro do ano passado? Shehadi se pergunta que tipo de ordem está sendo mantida no mundo árabe, a que custo e, acima de tudo, quanto ódio e frustração política em ebulição existe por baixo de supostas “ordens” como aquelas que reinam na Arábia Saudita. Além disso, Shehadi questiona o comportamento ambíguo da comunidade internacional em relação à Síria. Segundo ele, ambiguidade para um ditador significa “apoio”: a posição adotada pela Europa e os Estados Unidos é entendida por Assad como uma licença total para matar. Não pode haver ambiguidades nos discursos de líderes políticos internacionais em relação à Síria – a que mais recebeu apoio ocidental até agora – porque ditadores simplesmente não entendem essa forma de discurso.</p>
<p>A cautela demonstrada pela nossa presidente e pelo ministro das relações exteriores no que tange a pronunciamentos públicos sobre o tema deve-se, em parte, aos imensos interesses políticos e econômicos que existem em jogo no que concerne as nossas relações com o mundo árabe. Temos a maior concentração de árabes fora do mundo árabe, uma pauta de exportações diversificada para a região que inclui aeronaves, tratores, máquinas e equipamentos para a construção civil e fomos os idealizadores da cúpula América do Sul – Países Árabes, um fórum de dialogo trans-regional que visa estreitar as relações entre nós e nossos parceiros árabes. O Brasil tem um patrimônio político acumulado com o mundo árabe que não pode ser posto em risco e é por isso que a chancelaria brasileira tem se mostrado tão cautelosa. A academia, por outro lado, poderia ser bem mais ousada&#8230;</p>
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		<title>Barry Buzan e o Globalismo Descentralizado</title>
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		<pubDate>Sun, 22 May 2011 12:49:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conexões Invisíveis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Relações Internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Barry Buzan]]></category>

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		<description><![CDATA[Silvia Ferabolli Boletim Mundorama, 18 de maio de 2011 O globalismo descentralizado de Barry Buzan define um mundo que opera dentro de uma lógica de poder mais distribuído e menos concentrado, onde as regiões  terão mais autonomia para trilhar seus próprios caminhos. A posição que os Estados Unidos ainda mantêm é frágil e é bastante [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conexoesinvisiveis.com&amp;blog=9050773&amp;post=353&amp;subd=claudioesilvia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Silvia Ferabolli</p>
<p>Boletim Mundorama, 18 de maio de 2011</p>
<p><a href="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/05/images2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-359" title="images" src="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/05/images2.jpg?w=519" alt=""   /></a>O globalismo descentralizado de Barry Buzan define um mundo que opera dentro de uma lógica de poder mais distribuído e menos concentrado, onde as regiões  terão mais autonomia para trilhar seus próprios caminhos. A posição que os Estados Unidos ainda mantêm é frágil e é bastante plausível argumentar que eles estão perdendo a capacidade de continuar liderando o sistema – e que ninguém ocupará o seu lugar porque a era dos super-poderes simplesmente acabou (ver A World Without Superpowers: de-centered globalism. LSE IDEAS and International Relations Department public lecture).</p>
<p>Para que se possa discutir o significado de um mundo de globalismo decentralizado cuja principal característicaé a inexistência de super-poderes faz-se necessário definir, primeiramente, o significado de “super-poder”. É importante ressaltar que existe uma diferença significativa entre super-power egreat-power. No primeiro caso, o poder se espalha através do globo e existe a capacidade de operar globalmente e, inclusive, de dominar o sistema. Um super-poder é aquele que desempenha – ou pode desempenhar – um papel hegemônico no sistema. No segundo, existe a influência em mais de uma região do mundo, como no caso da União Europeia, por exemplo, mas não existe capacidade de hegemonia sistêmica.<span id="more-353"></span> Por fim, existem os poderes regionais, como o Brasil que, como o próprio nome diz, tem poder circunscrito a sua própria região.</p>
<p>Debates em torno da uni ou multipolaridade tendem a ser centrados nos Estados Unidos. No primeiro caso, os Estados Unidos permanecem sendo líderes incontestes do sistema; no segundo, além dos Estados Unidos, China e União Européia também se revelam importantes pólos de poder global. Contudo, existe um terceiro cenário, qual seja, a simples inexistência de um superpoder. O mundo não mais se divide entre aqueles que estãocom ou contra os Estados Unidos. Hoje, existe uma terceira opção: simplesmente não se importar com os Estados Unidos!</p>
<p>Na verdade, o que gera esses debates intermináveis sobre os contornos do mundo pós-Guerra Fria é a insistência por parte dos pesquisadores de definirem se os Estados Unidos são o único super-poder, se a China tornar-se-á o proximo super-poder ou se o mundo terá diversos super-poderes. Parece difícil para a maioria dos estudiosos de RI entender que é possível, sim, um mundo sem super-poderes. Partimos do pressuposto de que os super-poderes sempre existiram, mas uma perspectiva histórica mais longa nos revela que isso simplesmente nãoé verdade. Éapenas com o advento da revolução industrial que se cria um gigantesco hiato entre os poderes, permitindo a surgimento dos super-poderes. A existência de super-poderes é um processo histórico localizado e agora presenciamos o fim dessa eracom a ascensão do “resto” (clara referência do autor a dicotomia “the west and the rest” e, talvez, também ao The post-American world, de Fareed Zakaria). A existência de super-poderes é um fenômeno “peculiar” e não “natural”. O hiato aberto pela revolução industrial está se estreitando e está chegando próximo do fim. Não hádúvida de que os Estados Unidos são, ainda, um super-poder, mas logo deixarão de ser e ninguém ocupará o seu lugar porque a era dos super-poderes simplesmente acabou.</p>
<p>Aqueles que vêem os Estados Unidos como hegêmonas absolutos do sistema tendem a focar excessivamente nas capacidades materias do país, quando as capacidades ditas “sociais” são muito mais importantes nos dias de hoje. Os Estados Unidos continuam sendo, de longe, os que mais investem no desenvolvimento de sua capacidade militar, mas sua hegemonia global dá-se mais pelo dito poder “social” – conceito que irá se aproximar, mas não se igualar, àquele de poder “brando” de Joseph Nye –  de ser seguido sem contestação pela Europa e pelo Japão do que propriamente pelo seu poder de coerção.</p>
<p>Por que a legitimidade do papel hegemônico norte-americano no sistema está gradualmente se esvaziando?  Sem dúvida, o fim da Guerra Fria deve ser apontado como principal culpado. As políticas norte-americanas que pareciam palatáveis aos olhos do mundo exatamente por causa do inimigo comum, agora revelam-se intoleráveis. Além disso, os Estados Unidos simplesmente não são mais um modelo a ser seguido pelo resto do mundo. E por que? 1) Porque o “American way of life” não é mais concebível em um mundo cada vez mais preocupado com questões ambientais; 2) Porque o apoio norte-americano a Israel não é mais aceitável em um mundo que preza cada vez mais o respeito aos direitos humanos e às leis internacionais; 3) Porque os Estados Unidos são os únicos que se sentem ameaçados pela ascensão chinesa e não há nenhum indício de que ações suas contra o gigante chinês serão apoiadas, pois enquanto a China continuar “se comportando” a União Europeia não se incomodará com o seu crescimento; 4) Porque o fracasso das diretrizes do Consenso de Washington revelaram que os Estados Unidos não podem mais oferecer soluções para os problemas econômicos mundiais; e5) Porque a guerra contra o terror minou a capacidade dos Estados Unidos de manterem-se como porta-vozes dos direitos humanos e da agenda liberal. Por fim, a manutenção da hegemonia global necessita de uma sólida base de apoio nacional. Porém, existe um número crescente de vozes dentro dos Estados Unidos que criticam as possibilidades – e limitações – abertas pela liderança global norte-americana.</p>
<p>Como pode-se perceber, os Estados Unidos ainda são um super-poder, mas sua posição é frágil e é bastante plausível argumentar que eles estão perdendo a capacidade de continuar liderando o sistema – e que ninguém ocupará o seu lugar. Por que a China não substituirá os Estados Unidos? Porque ela simplesmente não tem as capacidades sociais necessárias para assumir a posição de poder hegemônico global – e muito menos tem capacidade material para tanto. Os Estados Unidos tinham/têm como aliados a Europa e o Japão. Quem são os amigos da China? “Apontem um único player global ou poder regional que está com a China e não abre”, desafia Buzan. Ainda, as políticas chinesas são low-profile, sua orientação política ainda é centrada em si mesma e ao chamado “excepcionalismo chines”, faltando a ela o apelo universal que os Estados Unidos tinham/têm. O modelo norte-americano de “city upon the hill” era para ser admirado e copiado; o chinês é para ser entendido como algo único, próprio e exclusivo da China. A mensagem que vem de Beijing é bastante clara e muito razoável: “nós temos1/5 da população mundial para alimentar. Se conseguirmos fazer isso, essa será nossa maior contribuição para a humanidade”. Objetivo justo e louvável, diga-se de passagem, mas que enfraquece as capacidades materias chinesas. Por fim, existe uma clara indisposição chinesa para engajar-se com os problemas do restante do mundo; o país não “vende” idéias e não tem uma ideologia coerente capaz de convencer os outros a copiarem o seu modelo e, talvez um dos elementos mais significativos dessa discussão, a China não foi presenteada com o vácuo de poder que os Estados Unidos foram no final da II Guerra Mundial.</p>
<p>Quanto a União Européia, essa não tem inimigos, parece ser um bom modelo a ser seguido – ótimas capacidades sociais – e seus recursos de poder material não são desprezíveis. Porém, “ninguém na União Européia quer que ela se torne o poder hegemônico global” (ênfase de Buzan). Nem as populaçõesnem as elites políticas desejam esse papel para a UE. Ninguém quer arcar com os custos de estar na pele de um super-poder. Esse é um trabalho muito oneroso e muito dispendioso que a União Européia, definitivamente, não quer fazer.</p>
<p>O cenário mais provável para o mundo (pós-americano?)parece ser a de reforço do processo de regionalização, com alguns grandes poderes se sobressaindo, como China, Japão, União Européia e, lógico, Estados Unidos. Basicamente, isso é o globalismo descentralizado do qual Barry Buzan fala: um mundo que opera dentro de uma lógica de poder mais distribuído e menos concentrado.E por que isso vai acontecer?Porque existe uma lógica anti-hegemônica que busca respeitar cada vez mais o uso da diplomacia e do recurso a instituições internacionais para mediar conflitos internacionais; porque todos temem a guerra – seja em que escala que for; porque não existem mais ideologias dicotômicas que permitem a polarização do mundo; porque em um mundo descentralizado existe mais espaço para a cooperação; e, porque, acima de tudo, o projeto liberal universal simplesmente não foi e não será realizado e em um mundo descentralizado as regiões terão mais autonomia e não serão mais tão cobradas a aceitar o projeto liberal universal.</p>
<p>O Ocidente não émais o “dono” do futuro – outras regiões tem o direito de tentar trilhar seus próprios caminhos (referência ao Islã político?). Com o fim da Guerra Fria e o esvaziamento do Consenso de Washington parece mais clara do que nunca a percepção geral de que não existem soluções globais, mas apenas regionais. O que está havendo éuma volta à ordem pré-moderna de distribuição mais regular do poder em escala global e na qual uma única civilizaçãonãopode impor sua visão de mundo sobre o restante da humanidade: tendência que aponta para a mudança de uma idéia liberal universal ocidental para a ascensão do poder da diversidade cultural.</p>
<p>(Será?)</p>
<br />Filed under: <a href='http://conexoesinvisiveis.com/category/relacoes-internacionais/'>Relações Internacionais</a> Tagged: <a href='http://conexoesinvisiveis.com/tag/barry-buzan/'>Barry Buzan</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/claudioesilvia.wordpress.com/353/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/claudioesilvia.wordpress.com/353/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/claudioesilvia.wordpress.com/353/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/claudioesilvia.wordpress.com/353/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/claudioesilvia.wordpress.com/353/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/claudioesilvia.wordpress.com/353/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/claudioesilvia.wordpress.com/353/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/claudioesilvia.wordpress.com/353/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/claudioesilvia.wordpress.com/353/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/claudioesilvia.wordpress.com/353/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/claudioesilvia.wordpress.com/353/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/claudioesilvia.wordpress.com/353/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/claudioesilvia.wordpress.com/353/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/claudioesilvia.wordpress.com/353/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conexoesinvisiveis.com&amp;blog=9050773&amp;post=353&amp;subd=claudioesilvia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Foucault &#8211; O Irã e as Surpresas do Filósofo</title>
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		<pubDate>Sun, 22 May 2011 12:36:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conexões Invisíveis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estudos Culturais]]></category>
		<category><![CDATA[Resenha Foucault]]></category>

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		<description><![CDATA[Cláudio César Dutra de Soluza Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 4-5 – 14 de maio de 2011 Em 1978, quando os protestos de rua contra o governo do Xá Reza Pahlavi, no Irã, estavam atingindo um ponto crítico, o filósofo Michel Foucault foi convidado a viajar várias vezes ao país como correspondente do jornal italiano Corriere [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conexoesinvisiveis.com&amp;blog=9050773&amp;post=347&amp;subd=claudioesilvia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cláudio César Dutra de Soluza</p>
<p>Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 4-5 – 14 de maio de 2011</p>
<p><a href="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/05/fct1.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-349" title="fct" src="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/05/fct1.jpg?w=197&#038;h=180" alt="" width="197" height="180" /></a>Em 1978, quando os protestos de rua contra o governo do Xá Reza Pahlavi, no Irã, estavam atingindo um ponto crítico, o filósofo Michel Foucault foi convidado a viajar várias vezes ao país como correspondente do jornal italiano <em>Corriere de la Serra,</em> da revista francesa <em>Le Nouvel Observateur </em>e do jornal francês<em> Le Monde, </em>dando início a uma improvável – mas intensamente verdadeira e contraditória – relação entre o pensamento de um dos maiores filósofos do século XX, que analisou como nenhum outro as relações de poder-saber que se constituíram a partir da modernidade, com os ditames de um religioso asceta encarnado na figura de Aiatolá Khomeini.</p>
<p>Nessa inédita atuação enquanto jornalista, Foucault produziu diversos artigos sobre os eventos que culminaram na ascensão de Khomeini ao poder, nunca escondendo o fascínio acerca do que concebia como o nascimento de uma nova “dimensão espiritual da política”. Para a historiadora Janet Afary e o sociólogo Kevin B. Anderson, autores do livro <em>Foucault e a Revolução Iraniana</em> (Ed É Realizações, 2011) ambos ligados aos estudos feministas, o apoio de Foucault a um regime repressivo e intolerante para com sexualidades ditas desviantes e expressões diversas de liberdade civil, era contraditório em relação ao que ele escrevera antes e que inspirara diversos movimentos sociais libertários em todo o mundo.<span id="more-347"></span> Lançado em 2005, nos Estados Unidos, esse livro que agora chega ao Brasil busca compreender algumas razões do apoio irrestrito de Foucault à Revolução Iraniana que, de acordo com os autores, acaba sendo surpreendentemente coerente com o seu pensamento e vida privada.</p>
<p>Fartamente documentado, o livro apresenta praticamente tudo o que Foucault escreveu e declarou a respeito da Revolução Iraniana, bem como as réplicas virulentas dos intelectuais de todo o mundo que, em uníssono, condenaram o seu engajamento pró-Islã. Foucault se encontrava absolutamente solitário em suas posições. Diversos autores, entre eles Edward Said, o acusaram de acreditar em um orientalismo ingênuo que ignorava a magnitude das forças reacionárias em jogo. Foucault acreditava que a dimensão espiritual e revolucionária no Irã, que unia marxistas e muçulmanos em um objetivo comum, poderia ser exportada para o resto da Europa secular. Em artigo publicado no jornal <em>Le monde</em> em outubro de 1978, intitulado “Os Iranianos sonham com o quê?”, Foucault sustenta que um governo islâmico não significaria um regime político na qual os clérigos supervisionassem e controlassem tudo. Para ele, um governo islâmico se constituía como um “ideal” e uma “utopia” que ultrapassava os conceitos democráticos que, no ocidente, se dividiam entre burgueses e revolucionários. Nesse que é um de seus principais artigos sobre o tema e, em outros tantos, Foucault repete frases que os Aiatolás lhe passaram acerca de um Islã místico e carregado de simbolismos que o remetiam à antiguidade clássica na qual Foucault ouvia de forma ingênua e deslumbrada, como apontaram seus críticos posteriormente.</p>
<p>Foucault teve encontros com vários líderes religiosos do Irã. No entanto, o encontro com o Aiatolá Khomeini, em seu exílio na França, o impressionou fortemente, levando-o a declarar que Khomeini personificava a “vontade de poder” nietzschiana. Aproveitando-se do aval precioso de um dos maiores filósofos ocidentais, Khomeini, tanto quanto outros Aiatolás entrevistados por Foucault, ocultava o conteúdo mais radical de seu discurso, dando a Foucault o que este queria ouvir e retroalimentando, como consequência, as suas ilusões orientalistas.  </p>
<p>Ao tentarem entender o ponto de união entre Foucault e o Islã, os autores destacam a orientação homossexual do filósofo como um dado importante para a compreensão de tal fenômeno. De acordo com Foucault, a modernidade foi responsável pela mudança de “arte erótica” para uma “ciência sexual” que estabeleceu, através dos discursos de poder da medicina, psicologia e do cristianismo, um “regime de verdade” sobre o sexo, punindo os desviantes e normatizando o casal heterossexual. Foucault via no Islã a preservação dessa arte erótica que permanecia no âmbito do privado. Chamou-lhe a atenção um artigo do Aiatolá Khomeini que orientava os sodomitas a purificarem o corpo e praticarem a caridade em uma relação direta com o divino, sem a mediação de instâncias de poder. Entretanto, os autores ressaltam que Foucault nunca deu muita importância à sexualidade feminina em suas obras, acusando-o de “androcentrista” e insinuando certa misoginia em sua fascinação pelos arranjos pré-modernos em que o contrato social preponderava sobre o amor romântico, que de certa forma ainda predomina no Islã. Para as feministas, essa era uma situação que outorgava às mulheres o mero papel de mantenedoras de uma ordem social hipócrita. O modelo grego descrito por Foucault no segundo volume da <em>História da Sexualidade</em>, quando esse analisa a pederastia e a liberdade sexual entre as elites helênicas, não seriam mais do que sinais de seu desprezo pelo feminino, relegado a um papel secundário em seus escritos.</p>
<p>Os autores acusam Foucault de não se limitar à crítica de certos aspectos da modernidade, mas sim de seus próprios princípios, os quais deveriam ser rejeitados no Irã em prol daquilo que Foucault considerava menos danoso, ou seja, o Islã idealizado que o absorvia apaixonadamente naquele momento. Em 06 de novembro de 1978, uma leitora anônima do <em>Nouvel Observateur</em>, intitulada Atoussa H., cuja identidade é desconhecida até hoje, escreveu uma carta em resposta a Foucault criticando veementemente a ideia de que um governo islâmico poderia substituir a sangrenta ditadura de Reza Pahlavi, na medida em que <em>“a esquerda liberal do ocidente precisa saber que a lei islâmica se torna um peso morto em sociedades famintas por mudanças. A esquerda deve não se deixar seduzir por uma cura que talvez seja pior do que a própria doença”.</em> Embora muitos intelectuais franceses da época tenham igualmente se entusiasmado com a situação revolucionária iraniana, nenhum deles acompanhou Foucault em seu apoio ao Islã em detrimento do Marxismo secular e da esquerda nacionalista.</p>
<p>Janet Afary e Kevin B. Anderson são particularmente cruéis com Foucault no epílogo do livro, colocando-o como o inspirador de uma linhagem de pensadores que procuram negar a cultura ocidental, tais como Sartre, Chomsky e Baudrillard, e apelando para os perigos do relativismo absoluto pós-estruturalista. Khomeini empreendeu violenta perseguição a todas as vozes moderadas que o haviam auxiliado na revolução, sendo que muitos foram exilados, ou morreram nesse processo. A aventura intelectual de Foucault, segundo os autores, lhe custou amigos e quase a reputação, sendo que este declarou ter saído muito “machucado” desse processo, optando pelo silêncio desde então.</p>
<p>Por fim, concebendo que Foucault tenha, de fato, incorrido nas contradições apontadas pelos autores ele, que era um grande leitor de Hegel, nunca se furtou a estas, internalizando a relação dialética que supõe a formação de um sujeito dinâmico cujas contradições são parte de seu próprio processo de desenvolvimento intelectual. No entanto, a minuciosa desconstrução de um mito intelectual contemporâneo do porte de Foucault vale a leitura do livro que desde já se insere como fundamental para quem deseja se aprofundar no pensamento foucaultiano.</p>
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		<title>O Egito pós-Mubarak</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Mar 2011 13:45:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conexões Invisíveis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Relações Internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Primavera Árabe]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Cláudio César Dutra de Souza e Sílvia Ferabolli</p>
<p>Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, p. 6 &#8211; 05 de março de 2011</p>
<p><a href="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/03/egitooo.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-330" title="egitooo" src="http://claudioesilvia.files.wordpress.com/2011/03/egitooo.jpg?w=192&#038;h=167" alt="" width="192" height="167" /></a>No dia 11 de fevereiro de 2011, a população egípcia aparentemente atingiu seu objetivo após 17 dias de intensas manifestações por todo o país, com a renúncia do presidente/ditador Hosni Mubarak. A partir da insurreição popular na Tunísia, que pôs fim aos 23 anos de governo do presidente Zine El Abidine Ben Ali, foi quebrada a barreira do medo que impedia as populações do mundo árabe de saírem às ruas, revelando seu descontentamento com os governos corruptos, repressivos e alinhados a um Ocidente que sustenta democracias de fachada na região em defesa de seus próprios interesses.<br />
Passada a alegria com o dia histórico da renúncia de Mubarak, a transição democrática ainda é uma incógnita. Apesar de ter deixado o Egito à beira da penúria econômica, com um sistema político repressivo e violento, Mubarak era uma aliado estratégico dos Estados Unidos e de Israel que temem, mais do que nunca, um desequilíbrio político na região que conduza a ascenção de fundamentalistas anti-ocidentais.<span id="more-329"></span><br />
Hosni Mubarak foi o sucessor do presidente Anwar Sadat (1970-1981) que pagou com a vida por ter assinado os acordos de Camp David (1978-79), os quais promoveram a paz com Israel. Mubarak, então vice-presidente do país e herói na guerra do Yom Kippur (1973), tornou-se uma peça fundamental no equilibrio de forças na região a partir de sua ascensão ao poder em 1981. O Egito, sob o governo de Mubarak, garantiu a paz com Israel nesses últimos 30 anos, resistindo a dez anos de exclusão da Liga Árabe (1979-1989) e a série de atentados que ocorreram no país na década de 1990, sendo o mais trágico deles o de 1997, quando dezenas de turistas foram massacrados dentro do  templo de Hatchepsout, em ação reivindicada pelo grupo al-Gamaa al-Islamiya. A sustentação dos acordos de Camp David exigiu do presidente egípcio uma política implacável em relação a grupos islâmicos contrários aos acordos de paz com Israel e ao alinhamento com os Estados Unidos.<br />
Dos 22 países árabes, o Egito é o único a reconhecer a existência do Estado de Israel, além da inexpresiva Jordânia. Mubarak ganhou a gratidão israelense por solidificar os acordos de Camp David nos últimos trinta anos de seu governo e também por ter, juntamente com Omar Suleiman, arquitetado a destruição dos túneis construídos pelos palestinos na fronteira do Egito com a Faixa de Gaza, que serviam para facilitar o acesso de artigos fundamentais para a sobrevivência de seus habitantes. Por tudo isso, ele foi muito bem recompensado pelos Estados Unidos. A ajuda anual externa norte-americana ao Egito chegava a montantes de US$ 1,5 bilhão, direta e explicitamente condicionada a manutenção de relações diplomáticas com Israel. Ainda, durante os anos de seu reinado, Mubarak amealhou uma fortuna pessoal avaliada em US$ 40 bilhões. Corrupção e subserviência a Israel e aos Estados Unidos explicam facilmente o ardor dos protestos que provocaram a sua queda.<br />
Hosni Mubarak foi brilhante ao vender a idéia de que ele era a única solução contra grupos radicais islâmicos, destacando a Irmandade Muçulmana como símbolo de tudo aquilo que seria indesejado no país e perigoso ao mundo ocidental. Foi tão exitoso nessa empreitada que até hoje analistas tremem frente a uma possível tomada de poder por parte de fanáticos religiosos. De fato, tal estratégia abafou a atuação de outros movimentos sociais  que surgiram para além do  surrado discurso islâmico radical, tal como o Movimento 6 de abril que, nesse dia, no ano de 2008, conclamou uma greve de trabalhadores via Facebook. O resultado dessa ação foi, como era de se esperar, a repressão e a prisão dos grevistas, além da expulsão de 100 dos 454 parlamentares egípcios porque esses apoiaram a greve. Não é a toa que Mubarak suspendeu a internet e a telefonia celular durante o período de protestos desse ano. Outro movimento articulado pela sociedade civil egípcia a ser levado em conta é o Kifaya! ou Basta!, um movimento pró-democracia que congrega esquerdistas, nasseristas, e membros da Irmandade Muçulmana contra o regime de Mubarak. Seus fundadores têm em comum uma história de ativismo político partidário durante os anos 1970, aglutinando diversos segmentos da sociedade egípcia que exigem reformas democráticas no país, sendo um dos primeiros a organizar manifestações de repúdio a Mubarak, especialmente no que concerne ao seu plano de estabelecer uma hereditariedade no poder através de seu filho Gamal.<br />
Na verdade, de acordo com dados fornecidos por Maha Abdel Rahman, autora de Civil Society Exposed: The Politics of NGOs in Egypt (I.B. Tuaris, 2004), mais de 600 protestos já ocorreram no Egito desde o início das privatizações promovidas por Mubarak. Ainda, para aqueles que ainda acreditam que irmãos-muçulmanos e liberais estão em lados opostos do cabo de guerra da política egípcia, Michaelle L. Browers explica em Political Ideology in the Arab World: accomodation and transformation (Cambridge University Press, 2009) que existe uma acomodação de forças liberais, socialistas e islamistas para protestar contra medidas impopulares nos planos doméstico e externo perpetrados pelo regime de Mubarak.<br />
A preocupação reiterada de Israel com a situação no Egito na era pós-Mubarak seria de que essa situação abriria um flanco para a emergência de grupos radicais, reproduzindo o modelo Iraniano na fronteira do país hebreu. Tais inquitações, por mais pertinentes que sejam, não levam em conta que o Egito é o país mais secularizado do mundo árabe-muçulmano, com excelentes universidades e uma população acostumada ao contato com estrangeiros e que cada vez mais encara com desconfiança a premissa de que “O Islã é a solução”, frase símbolo da Irmandade Muçulmana a qual não goza de tanto apoio no país como muitos imaginam. O Egito é também o único páis árabe a ter três ganhadores do prêmio Nobel (Anwar Sadat e Mohamed el Baradei &#8211; Nobel da paz &#8211; e Naguib Mahfouz &#8211; Nobel de literatura).<br />
A comparação entre o estado atual do Egito e o Irã pré-revolucionário de 1979 é um grande erro. O movimento que depôs o Xá Reza Pahlevi era de cunho ideológico, com ativa participação de grupos comunistas que foram banidos ou mortos pelo Aiatolá Khomeini quando este tomou o poder. O Xá se alinhava ao ocidente não apenas de forma diplomática mas também em termos de costumes, chegando a proibir o uso do véu pelas mulheres iranianas &#8211; uma afronta aos fundamentos do Islã. Mubarak sempre respeitou as tradições religiosas, ao mesmo tempo em que respeitava o secularismo no país, o que permitia um grau considerável de tolerância entre muçulmanos, cristãos cooptas e até mesmo aqueles que não professavam nenhuma religião. Com as tensões populares aumentando no Irã de hoje em busca de liberdade e também por melhores condições econômicas, seria impossível, nesse momento, imaginar um apoio generalizado a um regime teocrático autoritário.<br />
Após a queda de Hosni Mubarak, o  Conselho Supremo das Forças Armadas do Egito está gerenciando a situação, já tendo dissolvido o antigo parlamento e acenando com medidas que irão efetivamente mudar o cenário político do país. Resta saber qual será a velocidade com que tais medidas serão implementadas já que, no papel de “fiador democrático” da transição, talvez os militares ainda não compreendam totalmente a extenção do problema que tem nas mãos. As aspirações populares são muitas e podemos resumí-las nos seguintes termos: 1) suspenção imediata do estado de emergência, prometido e ainda não cumprido; 2) libertação de presos políticos e o fim das perseguição aos partidos de oposição e aos sindicatos; 3) fim da polícia secreta; 4) reorientação econômica de forma a promover o desenvolvimento em lugar do protecionismo estatal; 5) estabelecimento de uma nova assembléia nacional constituinte com ampla participação dos atores políticos que representem os anseios populares. Ainda, será possível julgar e condenar Mubarak por crimes de corrupção e severas violações de direitos humanos? Ou será que o antigo ditador, ainda presente no país, confortavelmente instalado no balneário de Sharm el-Sheikh, poderá comandar a transição nos bastidores, frustrando os anseios por mudanças por parte da população egípcia? O que sabe é que Mubarak não esteve sozinho no poder nas últimas três décadas. Centenas, senão milhares, de pessoas sustentaram e foram sustentadas política e economicamente por esse regime. Esses grupos precisam ser neutralizados e desarticulados de modo a abrir caminho para as verdadeiras mudanças estruturais que o Egito demanda.<br />
Finalmente, uma palavra sobre o jovem tunisiano Mohamed Bouazizi cuja imolação deu início a série de eventos que levou à derrubada de Ben Ali e Hosni Mubarak: seu feito se compara ao efeito borboleta no qual “o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e talvez provocar um tufão do outro lado do mundo”. O bater das asas de Bouazizi provocou um tufão revolucionário no mundo árabe desencadeando aquela que já é considerada uma das mais espetaculares reviravoltas histórico-políticas do moderno Oriente Médio. O que virá a seguir ainda é uma incógnita, mas nada mais será como antes &#8211; Insh-Allah!</p>
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